26/11/09

morfina

o telefone toca, deixo o livro de lado
é o bom amigo Büll:
– tá fazendo?
– soletrando dores com o velho Chinaski
– bora tomar umas?
– onde?
– no Rota 101
– desculpe, velho, me recuso a entrar
num lugar chamado Rota

mesmo sem nunca ter ido ao lugar
imagino o movimento
e todas as moças
todos os quadris
todos os joelhos
e o peso dos silicones
que faz inclinar
o eixo da Terra

prefiro o Bar do China
em frente à rodoviária
onde os onibus chegam e descarregam
outras moças
com outros pesos
nos ombros

eu vou pro fundo do bar e o China traz
uma cerveja sem cápsula

lá pela segunda
lembro de um texto do Nilo
sobre um outro China
e eu sorrio
sozinho

na volta pra casa
enxergo ao longe
e aceno para os conhecidos
da alta sociedade interiorana
que estacionam na porta do bar da moda
aqueles mesmos que sempre me perguntam
se sou um sujeito bem sucedido
e eu sorrio
sozinho

eu sou um sujeito bem sucedido
pelo menos quando
me aplico
uma dose
que me faz esquecer
por instantes
dessa exasperante
dor nas costas
(novembro, 2009)

25/11/09


Flavio Damm
meu bem,

esqueça o dia de ontem
e anteontem também
não dê tanta importância
ao que dizem os dicionários
esqueça
das livrarias abarrotadas
e da elegância dos vendedores

esqueça
do volume insuportável
dos templos
onde habitam
as falsas feridas
e a imbecilidade verdadeira

esqueça
o que vivi naquela outra cidade

esqueça
que os cães estão mudos

esqueça dos cães

esqueça da música
dos maestros
dos homens de bem
das mulheres de bem
esqueça
que tudo vale a pena
esqueça das nuvens
esqueça das flores
não encoste nelas

não encoste seus dedos
minha pele guarda um vento
indecifrável
uma febre
uma sede

não encoste na fonte

esqueça

(novembro, 2009)

23/11/09


Paul Strand
boas festas

é sempre melhor
assim
quatro ou cinco novos livros
algumas latas de cerveja
num canto do quarto
o silêncio da casa
e na mansidão das ruas
só os cães:
os perdidos
os maltratados
os famintos:
são os que verdadeiramente amo

meus velhos já foram
encontrar as crianças
do outro lado do mundo -
pode até parecer uma pesada penitência
dividir a casa com os pais
na minha idade,
mas sempre fica uma certa doçura
depois que eles partem

vai ser mais fácil
assim
quase que pela 60ª vez
um verão do diabo
sem ninguém por perto
a exigir atenção e abraços

pode até haver alguma música
é sempre o que me salva
a música
mas que ela não toque
congraçamentos
esperança e felicidades
apenas uma música que lembre
alguém como eu
com os livros
as latas
o cinzeiro
pensando num cão
perdido
que fareja a calçada

(novembro, 2009)

19/11/09


ando assim
(pra Nydia Bonetti)
não sinto que seja um castigo
deve ser somente um tempo em que o desvario
se ausenta
quem sabe para sempre
é como se uma novíssima dor
tomasse conta de tudo
ou como se percebesse repentinamente
todas as mudanças
as pernas ficam mais magras
não leves
o estômago se anuncia
as orelhas nunca deixaram de crescer
assim como as unhas
e o nariz
o corpo todo muda
o céu da boca
a arcada e seus dentes mudam
e doem os espaços dos dentes
que já se foram
faz muito
os olhos mudam
ficam mais densos
os dedos
com mais peso
mudam
até o vazio muda
a voz muda
quase treme
o sono muda a cada manhã
ando assim
quieto

(novembro, 2009)

05/11/09


Rosemary Laing
mais jazz

não é vergonha alguma
ser sentimental demais
eu gosto de você assim
olhando lá fora
pra esse lugar que sempre foge
de nós
eu gosto de repetir
que a melhor das paisagens
é você
debruçada sobre a tarde
que já foi embora

não é uma lembrança
é um presságio
não é uma ausência
é uma prece

que mal pode fazer
a nós dois
ouvir outra vez
a mesma música?
não é um lamento
é uma descoberta
não é só mais um dia
que retorna
são todos os dias
amontoados
num mesmo momento


(novembro, 2009)

04/11/09



ponte dos arcos

devo ser o mesmo homem
aquele que carrega dentro de si
o que restou dos amigos
que já partiram
devo ser um passageiro em Granada
na tarde em que todos os poetas desapareceram
da face do mundo
devo ser o que se perde
mas não naufraga
num mar de avenidas
devo ser aquele que escapa
de si mesmo
e que nunca mais volta pra casa
devo ser alguém
que não lembra da última noite
e dos cantores sob a luz do poste
calados
devo ser um deles
com um cigarro apagado
sentado nas pedras
olhando o mar do Caribe
devo ser o velho do barco
aquele que sempre voltou
devo ser ele
aquele mesmo menino
que monta um cavalo selvagem
e aposta corrida com o vento
e que atravessa os dias
levitando
sobre a ponte dos arcos
e brinca de guerrilheiro
na outra margem do rio
(novembro, 2009)

03/11/09


Martine Franck

tempestade a caminho

ela tem o mapa da cidade
tatuado nas coxas
senta-se ao meu lado com uma força
que desconcerta
e pousa os antebraços sobre o balcão
quase sem gravidade
gosto de pensar que seu nome
é Cass
seus pés balançam encontrando os meus
são apenas dois breves toques

nunca nos falamos
mas ela atravessa as noites
ao meu lado
eu sinto o suor que desce
pelas nossas costas
ouço uma musica que inventei
quando fui jovem
são notas de um piano tocando o solo
deve ser tarde
é sempre tarde demais
(novembro, 2009)

02/11/09


Willy Ronis

moça debruçada
na janela

não precisei explicar nada
bastou ela me olhar
desde o instante da chegada
devo ter adormecido
entre as tintas pincéis potes
carvão e folhas de esboço
da lata de terebentina
e da garrafa de vinho
até o chão da sala
parecia não fazer sentido
um artista como eu
levantando, enquanto ela dizia
toma um banho, se prepare

então
o mundo na mais perfeita ordem
ela debruçada na janela
olhando o mistério que passa
me falou sem se voltar:
vou te pedir uma coisa
por favor, faça algo
não dá mais pra suportar
ver você
assim tão triste
(novembro, 2009)

27/10/09


Maurizio Polese

alzheimer

novamente o dia entre os dedos
como mãos enfiadas num rio
eu já soube o que viveu lá dentro
fui eu mesma que te ensinei
tudo muito bem guardado
era eu que visitava a casa
do outro lado da ponte
quando o céu se enchia de lua

foi ali que te concebi
nas entranhas da saudade
doeu um mundo inteiro
como quando as louças caíram
toda uma dinastia partiu
com elas foram o chá e as tardes
e uma multidão de impressões
e no fundo do quintal
o cão escondido da chuva
o sol morrendo de velho
como os discos 78 cantando
o ar negro em rotação
fui eu que ensinei a elas
e uma delas me contou
que uma vez subiu para o sótão
e lá descobriu a ternura

meu vestido trazia a floresta
fui eu que te segurei no colo
um pouco antes do susto
eu te apertei em meus seios
teus ossos machucavam meus ossos
e misturada à pele
minha roupa de tão surrada
se desfazia no ar

(outubro, 2009)

25/10/09


Santosh Korthiwada

o filho do jóquei

acompanhe a nossa história
não há derrota, não há truques
só você consegue entender
olhe para os meus braços
os punhos da camisa dobrados
não há nada nestas mãos
o chicote e as botas no canto
essa é a minha vida
tão parecida com a sua
ainda trago as marcas
e como você mesmo sabe
escondidas debaixo da pele

parecem os mesmos sinais
parecem os mesmos motivos
e é tão fácil escapar
basta virar as costas
basta trancar-se lá dentro
basta viajar de navio
atravessar as montanhas
olhar por cima do muro
e para safar-se do medo
esquecer da última queda
apostar que a vida dá certo
jogar o resto num pulo

prepare-se, meu velho,
por hoje o tempo é escasso
ainda um cheiro de alfafa
cocheira, cenoura
e açúcar em cubos
aqui no alto a vida está calma
no fundo, eu sei, você está bem
só mais um pouco de fôlego
parece até brincadeira
agora foi dada a largada
depois do último páreo
podemos voltar a nos ver

(outubro, 2009)

23/10/09


Margaret Bourke White
carbono 14

na época em que fomos modernos
um futuro tão claro e não víamos
juntar o açúcar no chão
dar uma bola na chuva
e quando tínhamos nada
éramos capazes de tudo
você dizia, meu bem,
vamos voltar para casa
vamos olhar da janela
levar uma garrafa de vinho
os hotéis baratos lotados
um corpo como o seu
à espera de um quarto vazio
colchões e dinheiro emprestados
subir e descer oito andares
os Talking Heads tocando
e você dançava comigo

(outubro, 2009)

15/10/09


Elliot Erwitt
22 de abril de 1985
(“A força que impele nossa vida à morte...”
- Lawrence Ferlinghetti -)
podia bem ser uma canção
qualquer uma
mas era o som ideal, o som inaudível
do universo
latejando entre as orelhas
e se eu pudesse
certamente pensaria sobre isto
que escrever poesia é como dobrar esquinas
numa manhã em que o silêncio sobrevoa
numa manhã em que uma sombra avisa
que não há morte
que poetas apenas mudam de lugar
que salvadores apenas mudam
de lugar
podia bem ser uma canção
cortando lares lojas bares bancos
enclausurados
uma canção que nos aproxima demais
do absoluto
e que vem como uma força que nos traz
pra dentro
uma toada que nos laça e golpeia
em plena avenida
e que cambaleia como um marujo
em plena avenida
e diz que poetas e salvadores nos empurram
pra vida
e que seria somente ilusão o avião levando
o pequeno corpo
e um pedaço de cada um de nós
por cima de tudo

(outubro, 2009)

13/10/09


Edward Weston

rumo à infância

ouvir o amanhecer
fazia tempo
quer dizer
perceber os pássaros
avisando que ele chega

ou pode ser que um fiapo
uma réstia
sobre o telhado
um zumbido no berço
fossem também o aviso

quer dizer
um assovio que voa
uma luz que rasteja
uma vida em seu ninho
anunciando

(outubro, 2009)

09/10/09


Sally Mann
outra vez

eu e os olhos dela
atravessando a ponte
os dedos entrelaçados
balançando
por meia eternidade

eu e os lábios dela
orando
arruma nossa cama
e agradece
quando voltarmos
pra casa
já que um dia teríamos uma
e nunca tivemos

eu a um passo dela
e esqueço que sei respirar
e esqueço quem fomos
e quem seremos
outra vez

(outubro, 2009)

Antonin Kratochvil

até aqui, tudo bem

parece que foi há pouco
o começo de tudo
no prédio do centro da cidade
distribuindo provas do jornal
na sala dos revisores
com o agente da censura a postos
ao lado da minha mesa
30 minutos de descanso
no final da tarde
não sem antes contemplar
o ascensorista
passeando os dedos na fita
perfurada pelos antigos computadores
não sem antes abrir o envelope
e descobrir que ela me deixara
bem no meio das suas férias
através de uma carta
a ferida rasgando
como a ponta de uma baioneta
eu descia até o Mutamba
sentava ao lado do Professor
saboreando sua papaya
Pernambuco picava as frutas
dentro do balcão
e preparava meu lanche
perto do fim do mundo
a carta inundava tudo
o prato o copo o viaduto
eu voltava pelo elevador
o mesmo ascensorista e sua leitura
não sem antes o vendedor de bilhetes
da loteria
enterrar seus pesados olhos
em mim
assim como eu
pouco antes
relendo a notícia
do falso suícidio
nas dependências da polícia
parece mesmo que foi há pouco
quase agora
que aquilo tudo começou

(outubro, 2009)

05/10/09


Antonin Kratochvil
quando cantávamos


encosta seu mundo interior
a este outro: o dos dias
já não é suficiente viver
transpira através da lágrima
e colhe com a língua
o sal dos seus lábios
e estende um olhar para Vênus


encosta seu templo interior
a este outro: o da próxima vida
embriague-se novamente
e sempre
de abandono
você é ainda o dono da luz
e na meia-noite
recolha-se à calçada
seu último santuário
e se desejar encontre
sobre todas as coisas
sua adorada canção

vá, sorria
como você mesmo fazia
quando cantávamos

(outubro, 2009)

01/10/09


Imagens Google

o azul da tarde

nada mais faria diferença
a tarde dizia adeus à cidade
afastando-se do ouro
encostando-se num suave tom azulado
como que acompanhando
meus próprios passos
meio metro acima da calçada
para depois
suportar o peso do azul
absoluto
sobre a face da terra

nada mais faria diferença
depois da sala de cinema
a garota
com lábios e ancas e seios
mais belos do que toda a sua vida
com um jeito de se mover
dentro da própria exatidão
sem equilibrio
com seu jeito de amar e deter
um grito
dentro do próprio silêncio
(outubro, 2009)

28/09/09


Margaret Bourke-White

no alto, no canto

durante o tempo todo que ficou sem sair, lera, pelo menos, uma dezena de vezes os versos, os últimos versos do mesmo poema, algo sobre uma janela escura, que se fixara lá, no alto, no canto, enquanto ele mesmo procurava no alto, no canto, lá, uma outra luz, sem ao menos perguntar-se o que acontecera durante todo tempo que ali ficou. algo se quebrara? choveu? as flores abaixo da janela desistiram? as correspondências amontoaram-se na sala, no chão da sala? não, nada havia lá no alto no canto acima da porta da entrada. algo se quebrara, ali, no chão. ou então nem sequer fora um ser humano. talvez algo como uma folha deitada, uma página que vagueia lenta, levada pelo rumor ou pela corrente de ar que passa pelo vão, por baixo da porta. ela deve ter vindo com o alvoroço de uma outra madrugada, um vento devastador atravessando a varanda, a janela. folha agora disforme, quase não se lembra mais o que foi. é só uma folha que ascendeu, desceu e instalou-se ali, no chão, não mais lá, no alto, num canto, sob a luz do mundo

(setembro, 2009)

22/09/09


Evandro Teixeira
um ano depois

agora tenho certeza
era você mesmo rodando
entre sinais crucifixos e anjos
um ano depois
passando em frente ao portão
ao lado das barracas de flores
se acovardando
que não encontraria a alameda
e que não valia a pena voltar
a sentir
um claro desespero
mas foi até lá mesmo assim
e tudo voltou
como um afogado à superfície
um ano depois
não havia nada para perdoar

um ano antes
olhando para os poucos amigos
que olhavam para baixo
enternecidos
agora tenho certeza
era você mesmo escapando
como um diabo foge
algo revirando lá dentro
entre o coração e a garganta
e a infância voltando
como um golpe de chicote
no tempo em que a guerra
começava dentro de casa
para depois ganhar as ruas
você lembra muito bem

(setembro, 2009)

20/09/09

Will Eisner

enquanto chove

não conseguia me concentrar naquilo
enfiar tudo na mochila
um par de calças meia dúzia de camisas
e todo o resto
o pior eram os livros
peguei só dois
entre eles o Faulkner
a coisa ficou mais difícil ainda
quando a criança entrou
sentou ao meu lado na beira da cama
e ficou olhando fixamente pra parede
não havia nada ali
só a parede
mas ela insistia
depois encostou a cabeça no meu braço
eu devia abraçá-la
ela sempre entendia tudo
a criança
empurrava a cabeça contra meu braço
depois tive que pedir pra vizinha
ficar um tanto com ela
até a mãe voltar
deixei as chaves no lugar das chaves
saí na chuva abraçado ao que restou
devia haver música
em algum lugar

(setembro, 2009)

18/09/09



jazz

balanço o molho de chaves na mão esquerda
ao descer a rua em direção ao acaso
e penso na sorte
e nos garotos que travam no asfalto
rompendo vidros de automóveis de luxo
tudo já era assim mesmo naquele tempo
e olho para a garota nua que dança
em frente a janela do apartamento
lançando sua sombra na calçada
continuo descendo até chegar ao bar sem luminoso
a porta fechada guarda um silêncio envelhecido
dou três batidas na madeira com os nós dos dedos
e Bernard me recebe
um belga alto sem sorrisos e sem palavras
encontro todos reunidos em uma mesa para oito
pessoas como eu naquela altura
deveriam se contentar com o isolamento
mas os amigos me convidam
minha ex-mulher e seu novo companheiro
dois outros casais duas garrafas de vinho e os copos
parecem felizes
menos eu que abraço a todos desequilibrado
conversamos sobre as perdas eu e a ex-mulher
seu novo companheiro diz algo que já desapareceu
eu também digo algo que não lembro
ele enfia o punho na minha mandíbula
os dois caem fora enquanto recolho o resto dos óculos
depois sento novamente e preencho o copo
o velho Bóris me olha com resignação
“você mereceu”, ele diz
então vou até o balcão e o Bernard me perdoa
e crava no toca-discos um tesouro do Coltrane
(setembro, 2009)

16/09/09


Paul Strand
cidade desaparecida

o tempo passa a percorrer o sentido inverso
- não, não estamos retornando -
continuamos como sempre
como uma velha tribo rodeando a fogueira
entoando nossa história

lembre-se que fomos também os seres
com os quais crescemos

agora tudo o que vemos são edifícios ocos
depois serão somente fósseis desencavados
e todos iremos embora mais cedo do que pensamos
antes do último sol cair
tudo o que cantamos desaparecerá no meio do tráfego

prendo seus cabelos de ouro em meus dedos de memória
é tarde demais
o céu toca a relva
o parque costura a borda da cidade
que desaparece dentro dos nossos olhos

(setembro, 2009)

14/09/09


Josef Koudelka
um pouco de paz

em torno da mesma mesa
depois de meses sem trocar palavra
coisa que envolvia uma só mulher
em nossos corações alterados
percebi que ainda éramos
os mesmos velhos amigos
de uma época em que escrevíamos
cartas com caneta-tinteiro
tempos com bares enfumaçados
e foi quando ele começou:
- nada melhor para selar a paz
do que umas boas doses de gim -
e não tocamos no assunto
ficamos entornando comédias
evaporando mágoas
e fazendo planos para um futuro
que nunca viria
dizendo que a vida era suja
e que odiávamos higienismo
proibições catequese palavras de ordem
e bom-mocismo
depois fomos embora
cada um na sua
como sempre acontece na noite
eu tenho comigo
que os amigos podem tudo
até mesmo morrer
foi ela quem me contou
aquela mesma mulher entre nós
me disse ao vivo
em torno de uma outra mesa
trinta anos depois
que ele ficara quieto e pesado
um pouco antes de ir
um cara que levitava
quando acendia um charuto
vivendo sem aquele sorriso
sem aquele jeito de quem desperta
apenas com um olhar
o desatento garçom
e com um aceno encomenda
mais uma dose de gim
(setembro, 2009)

11/09/09


Antonin Krotochvil
vida tranquila

eu estava preso ao trabalho
seria melhor me livrar
jogando tudo pro alto
como uma chuva ao contrário
como se não houvessem danos
tanto tempo enfiado
num lugar falsamente iluminado
apenas exibição e vazio
como um lutador de boxe
erguendo os braços e saltando
num rinque de patinação
seria melhor me equilibrar
sobre duas lâminas afiadas
e esculpir poesias no gelo
ou subir num ônibus
e deixar a cidade rodar
com ela mesma engolindo ruas
e nomeando-as novamente
seria melhor imaginar
homens caminhando
como um cavalo-marinho
no fundo de um aquário
falsamente iluminado
apenas exibição e vazio
e ao descer do ônibus
um incêndio atrás de cada esquina
uma mulher a cada esquina
a me perguntar: é feio sentir saudades?
e atravessar o saguão do hotel
para descobrir como seria depois da queda
a saltar degraus acima
adivinhando que viriam novos rounds

(setembro, 2009)

08/09/09


Thomas Hoepker
fotografia

ela andava de um lado para o outro
espalhando cinzas e fumaça
esperando o tal sujeito que a levaria
evitava olhar pra mim
evitando um desastre maior
eu olhava a fotografia
éramos quatro amigos numa tarde
bons tempos aqueles
mas todos desapareceram
ou haviam desistido
espalhados pelo mundo fincando novas raízes
ou simplesmente se escondendo
deles mesmos
levei o porta-retrato até a cozinha
e atirei na lixeira
enchi o copo e voltei pra poltrona
os destroços dela nos caixotes na entrada
três toques de buzina e a mudança começou
depois bateu a porta sem sequer me olhar
eu fiz um carinho no cão e esperei
o ronco do automóvel desaparecer na cidade
(setembro, 2009)

04/09/09


Alexander Rodchenko
irmãos

tudo claro mas tudo escuro
como numa prece
os dois sentados no meio-fio ao meio-dia
havíamos atravessado uma noite
plena de significados
tapetes dançando sob as mulheres
copos transbordando escorpiões
Cohen e Genet presentes
pai e mãe santos de quem éramos filhos
não havia mais nada
nem a música
era hora de levantar
nunca vamos crescer - ele disse
ele sempre falava a verdade
caminhamos pela alameda
em busca de mais um pouco de ar
ou do que fosse
éramos como sombra um do outro
e não desistiríamos
até que a luz do poente tocasse nossos pés

(setembro, 2009)

02/09/09


Antonin Kratochvil
clandestinos

então fomos pro front pela última vez
seguindo o mapa do centro da cidade
o ponto fechado como uma barricada
olhamos para o céu e aguardamos
varados pela noite um casal se despede na praça
numa cidade cruel como aquela
quando o dia vem é quase um alívio
resistir? pegar as armas? ela pergunta
num piscar o cerco se completa
só fizemos erguer os braços e deitar na calçada
em certas circunstâncias é melhor desistir
para manter o pouco de coragem que nos resta

(setembro, 2009)

29/08/09


Alexander Rodchenko

uma certa claridade

o sono ainda grudado nos olhos
nós tínhamos um código
quatro toques no telefone
pras emergências da madrugada
quando cheguei
tudo era pura lástima
o Marc pendurado na corda
sem deixar um bilhete
passei um pente fino
nem ampolas nem sacolas nem dinheiro
desci 5 lances de escada
o porteiro dormia sobre a correspondência
sonhava com fechaduras
lá fora o lixo na calçada
a única coisa que tem destino
esperei encostado na murada
as luzes do giroflex avisarem
a chegada do camburão
que levaria o corpo embora

(agosto, 2009)

25/08/09


Otto Stupakoff
kamikaze

Bóris e Judith em pé na ponta do balcão
bem perto da porta
vieram se despedir
partem para Paris
todos estavam indo embora daquela cidade suja
biquei da bebida deles até o Bóris dizer
quer que eu pague uma dose?
não respondi
enfiei a mão no bolso
e saquei a mais triste poesia
desde o final da última grande guerra
uns papéis amassados
o Bóris alisou a poesia e coçou a barba
depois de ler
suspirou e pagou a conta
eles foram embora arrumar as malas
fui sentar no fundo do bar
de onde podia ver a entrada
e a chegada das patrulhas
eu via tudo ventando lá fora
folhas papéis vidas a própria noite
e por um instante pensei
no último voo do kamikaze
da poesia que o Bóris havia lido

(agosto, 2009)

Henri Cartier-Bresson

coisas assim

sabia que seria uma longa noite
a mais fria
quando eu caí fora de casa
depois que ela entrou reclamando
dos cinzeiros cheios
a pia entupida
jogando as sacolas do supermercado
sobre a mesa da cozinha
onde eu escrevia
coisas que sem dúvida acabariam no lixo
coisas que eu teimava em lembrar
como a infância
uma febre alta
nada restou do lugar onde nasci
coisas assim
aproveitei a porta da rua ainda aberta
eu tinha tudo que precisava
o blusão de couro surrado
uns trocados pras bebidas
dois bolsos onde proteger as mãos
num deles
a carteira de cigarros
no outro
minha fotografia quando menino

(agosto, 2009)

17/08/09


Balthus

Eva

foi assim mesmo que ela apareceu
encostou o braço no batente da porta
nua
cruzou as pernas
fazendo ponta com um dos pés
à minha frente
sob os mil graus da água do chuveiro
num chão de azulejos escuros
ela foi o começo do meu dia
à tarde
sob o torpor da fumaça e do álcool
da noite anterior
fomos um fiasco ontem
ela disse e sorriu
eu daria meu último cigarro
se pudesse tocar outra vez aqueles lábios
mas isto já faz muito tempo
assim como tudo na vida
ela aparece vez ou outra na tv
e eu a vejo como se fosse aquela mesma menina
eu daria um dos meus olhos
para ver outra vez ela embalada dentro de seu sono
ou abrindo as portas da varanda
como um vento, logo de manhã
(agosto, 2009)

15/08/09


Sally Mann
aurora

aonde você
está indo, Luísa, com essa cintilante arma
na mão?
considera as confissões sopradas sob o vão
da escada,
seu olhar ainda cochila sobre o meu colo

haverá lugar que nos acolha após o último
fracasso?
Ducasse também me feriu o peito
e me sugou
mas de tudo o que vi, nada se deteve
como sua face

deixa que eu traduza a sua mais nova
palavra
todo ser é incomparável, assim como
a poesia
faça de conta que a dor é também
bálsamo

quando o verdadeiro frio chegar, cobre
sua tez
com as mãos que eu lhe dei e pergunta
à sua mãe
se não houve entre nós um segundo
de felicidade

(agosto, 2009)

10/08/09


Evandro Teixeira
leste, oeste

Parecia sempre aquilo que não era:
uma farta tecitura, fios, dedais
e a memória escorria como os dias.
E a vida ia se tramando breve.

Também não era como a infância
(essa outra vida que só finda quando
a compreendemos inteira) pois que
existia apenas na sua incompletude;
seria talvez como alimentar até hoje
nossa maculada mente apenas de ilusão.

Enterra esse cosmo no conforto da sua
mais delicada matéria: pode ser que tudo
nos afaste do afeto da criança, agora
que nem mesmo a velhice nos aguarda.


(agosto, 2009)

05/08/09


Rubens
através das nuvens

sempre que posso caço o passado através das nuvens,
muitos dizem que vivo de contar estrelas.
o que importa? de onde partir senão do princípio?
quando saio para o mundo, saio do meu quarto,
atravesso o jardim que Deus abençoa todas as manhãs
com sol ou chuva. E o sol e a chuva e o vento
e o calor ou o frio também me abençoam.
quando sinto na pele os sinais do tempo, olho o passado
através das nuvens e não há cicatriz alguma,
há apenas o tempo navegando desde sempre.
não há mapa, não há caminho, não há tesouro
maior do que o que temos: dois olhos e o universo inteiro.

(outubro, 1998)

02/08/09


Henri Cartier-Bresson

ainda é dia?

é como virar as costas
e andar
sabendo que o que fica
é o melhor
que você teve em vida

uma foto rasgada,
uma mensagem apagada,
uma pétala murcha

você perde,
você anda,
você ganha

não adianta fingir:
são tesouros que ficam
pra trás
(abril, 2009)

28/07/09


Siron Franco
o poeta na montanha

Pensa em ciclos que se fecham
enquanto olha as serras que se sobrepõem:
Bocaina, Mantiqueira, Quebra-cangalha, Serra do mar.
Sem progresso, sem dinheiro, sem culpa.

Olha os verdes vales onde tudo começou:
no banhado, a dança das garças
que se entrelaçam no ar
e descansam no cume da araucária;
o cão que pastoreia o gado
e que desce a encosta num galope de lobo;
o vizinho que cavalga com sonhos à sua volta;
o som das folhas que se encontram.

Ciclos que se fecham numa tarde de nuvens.

E sabe que tudo pode acabar ao descer a montanha.
E que sobrarão apenas palavras
e a lembrança do vento.

(julho, 2007)

24/07/09


Caravaggio
lembra, amor?

Lembra, Amor, quando nem seres éramos e fazíamos parte simplesmente de uma idéia, de uma luz, de um sopro de poesia?

Quando água, planta, pedra, bicho, nem sequer palavras eram e nossas vozes apenas serviam para declarar pela música o tesouro que era a vida?

Lembra, Amor, como celebrávamos o fogo, o sol, a chuva e a comida? E como nossos sonhos acalmavam nossas noites e guiavam nossos dias?


(fevereiro, 2008)

22/07/09


Paul Strand
Valparaíso, Chile (por volta de 1940)

A poesia quase sempre nasce da névoa.
O urro de um vulcão pode apressá-la.
Mas enquanto nem lava nem nuvem surgem,
espreito sobre o grande mapa que é o mundo
e como um astronauta vasculho sua morada.

Foi aqui, ou quase aqui, que seu berço
foi construído, entre a cordilheira enrugada
e o dolorido e tumultuado Pacífico:
Valparaíso del Chile, a um curto passo
de Santiago, a um centímetro de Viña.

E tanta poesia cerca esta cidade, no país
que serpenteia estreito até o sul extremo:
Melipilla, Licantèn, Talca, Constitución.
E tantos os santos: Fernando, Carlos, Rafael.
E todas as ilhas, tantas as ilhas, as ilhas.

Mas repousando o tempo outra vez sobre
sua casa, tudo estanca como fotografia:
sua maleta já recorda como uma sombra
a sua pequena figura. Um olhar apenas voa
pela cama, pelo quarto, pela breve infância.

E no momento em que a lua sopra sobre a terra,
o menino parte, sem ao menos dizer adeus.

(julho, 2009)

15/07/09


Josef Koudelka
a vida em harmonia

esse caminho de luzes acesas
atrás
o rangido da madeira do teto da casa
a ordem aparente sobre todas as coisas
à sua volta
à sua volta volutas espessas
de espessas formas se dissolvendo
e nunca mais Debussy
ao menos nesta noite
música rebentando
simplesmente rebentando
lembranças de outras músicas

é como uma quietude crescente
pronta a romper em revoluções
que não essas
é como uma sensação de ausência
e quanto mais ausência
mais se aproxima o conteúdo
quanto mais procura
mais luzes atrás ficam acessas
e a sensação de ordem sobre todas as coisas
a calma aparente à sua volta
pronta para explodir

(março, 1994)

10/07/09


Jindrich Streit
um vago oceano

Seria demais desejar outros mares quando vamos atravessando calmos por baixo desta última ponte? É só um rio que se deita e que deixamos para trás, eterno e solitário. Seria muita pretensão neste momento imaginar mares para tudo? O grumete, sereno, encolhe-se na noite e sonha com um mar de nuvens. O capitão espera que um espelho o oriente inventando um mar de estrelas. E nós, seres quase sem ambições, desejaríamos qual mar? Seria pouco imaginar apenas um mar de compreensão? Seria demasiada ousadia pedir um profundo mar de piedade? Seria enorme cobiça, ao nos lançarmos decididamente nesta inconsciência infinita, desejarmos mais? Um mar de tolerância. Um mar de compaixão. Um mar de cânticos. Um mar de justiça. E que outros mares venham sucessivos. O mar do conhecimento e o das lembranças; nunca um mar de memórias que de tão denso nos atracaria. E o mar da amizade - onde abrigaríamos aquela que sempre nos acolhe? Mar, mares. São tantos os desejos. E também um mar de amor - é melhor não esquecermos. E já que finalmente neste alto-mar do mar verdadeiro nos encontramos, não seria extraordinário se todos os mares imaginados se unissem num único e definitivo oceano? E que todos os seres o abraçassem; sim, todos abraçados a um infinito, terno e vago oceano.

(julho, 2009)

06/07/09


Cena de Apocalipse Now
o reino deste mundo

("talvez a verdade dependa
de um passeio até o lago"
-Wallace Stevens-)
apesar dos ramos e ramagens,
o vento dá outra volta e bate aqui.

a pequena cerca de bambú foi consertada,
as ovelhas comem folhas de amoreira
e os jovens preparam-se para o banho
após o longo dia.

sobe o cheiro de bolo e mel
peço mais uma vez
para que além das folhas e do lago
seja eu também iluminado
(março, 1991)

01/07/09


Imagens Google
Ananere, Texas (por volta de 1950)
("Pobre Texas
Talhado por dentro
Como todo o resto"
- Sam Sheppard-)

O filme de ontem à noite ainda não terminou:
Mosey fechou as portas do Cine Royal pela última vez
enquanto John Wayne tocava o gado para o Missouri.

Duane se mandou para a Coréia como quem vai até ali,
dizendo: “Se deixarem, daqui um ano ou dois, eu volto”.
Sonny ficou ao vento sem eira, sem Duane e sem Jassy.
É numa cidade como Ananere, onde os tumbleweeds
rodam como carroças silenciosas por ruelas e becos,
que o menino varredor de ruas, morto pelo caminhão
de gado, torce ainda para que seus amigos e guardiões
mais uma vez mudem a aba de seu boné para o lado.

Lá, Sam o Leão teve tudo o que quis, mas não teve nada.
A esposa se foi jovem e jovem ele ficou sem os filhos.
Tinha a lanchonete, o cinema e o bar com sinuca.
Tombou por cima de uma das mesas numa partida
sinistra. Mas continua sonhando à beira do lago
com a mãe de Jassy quando jovem e feliz menina,
atravessando a água de anáguas, montando cavalos
de mãos dadas e sorrindo. O único amor de Ananere.

Talvez a vida de Sam o Leão tenha valido por isso.
(julho, 2009)

30/06/09


Walker Evans
por quem oro

estou ao lado dos profetas
e dos loucos
encosto meu ombro ao deles
abaixo os olhos quando percebo
homens que se deixaram levar
e não souberam voltar
e ainda oro por eles
estou ao lado dos errantes
dos perdidos
dos iluminados
dos náufragos
e dos injustiçados
e ainda oro por eles
estou parado no jardim
a infância perece perdida
internada em abrigos atômicos
o amor vive tão longe
tenho os pés calcando o inferno
e a cabeça acima das nuvens
estou ao lado da fábrica dos medos
estou sentado
estou andando
estou ao lado das causas perdidas
eu mesmo estou perdido
e ainda continuo andando
meus irmãos caíram do céu
encosto minha alma à deles
meus amigos voaram para o céu
encosto minha alma à deles
oro aos que me ensinaram
e encosto minha alma à deles
oro aos desiludidos
aos aflitos
aos impotentes
e encosto meu ombro ao deles
minha boca está seca e ferida
mastigo palavras sagradas
não enxergo através da neblina
desço, subo
subo, desço
desde sempre estive acordado
não tenho casa nem descanso
olho os homens que passam
certos que possuem a verdade
eu não compreendo a verdade
e mesmo assim oro por eles

(julho, 2008)

23/06/09


Rauschenberg

de passagem

Deito sempre entre duas e três horas da madrugada.
É sempre o melhor momento. É quando a vida aparece.
É quando ela volta sozinha ao lugar onde nasceu.

Sonho com uma cidade indistinta até me tornar rua.
Tenho tanto de você em mim que acredito ser você.
Um acorde flutua, aperto o parapeito até converter-me
em música e execução. Vejo o asfalto num relance.

Assim mesmo, num relance.
(junho, 2009)

18/06/09


Sebastião Salgado
visão do paraíso

(em memória do Evandro, assassinado em 2007)
eu nem sabia de um mundo mais doce
com corações mansos por cima dele
com um outono de folhas movendo-se
suavemente por baixo dos meus passos

eu não sabia olhar através das torres
desejando o sabor das ruas da cidade
nos lábios, eu não sabia distinguir bem
cada uma das estações, eu nada sabia

eu nunca deitei ao seu lado e ofereci
meu suor ao seu, meu hálito ao seu
minha pele à sua pele num incêndio
eu nunca olhei seu rosto, eu nada sabia

eu nunca soube perdoar, haviam amores
reais por todos os lugares, no cume
de todas as vidas havia um perdão genuíno
no orvalho, havia um olhar à disposição

eu carregava minha alma com seis balas
no tambor e o punho fechado com chumbo
eu nem sabia de um mundo mais doce
com corações mansos por cima dele

eu nunca vi a misericórdia com bons olhos
eu nunca vou saber o que é felicidade
nem lembrar que há uma vida mais suave
com seus passos livres por cima de mim

(junho, 2009)

16/06/09


Coulbert
colapso nervoso

I

eu aqui
em qualquer lugar
quase sempre temendo
não tremendo
nem pequeno
é melhor dizer receio
do que medo
ou covardia.
aliás, o que sou
brota disso
de não dizer muitas vezes
porque vim
onde estava
com quem falo
quando falo
falo pouco do que sou
enfim


II

quem sou
vivem me perguntando
e se respondo é por pouco
virando a face de saída
não soberbo mas escapando
me defendendo mesmo
de perguntas que não sei
além do mais, que diferença faz
saber quem sou
que nome levo
onde fui parar
se há algo que sei
é que sem você
só olhei o mar
foi ele quem ficou,
imenso, no seu lugar
além de tudo
me afoguei, me perdi
além do mais


III

no entanto
o que penso
onde estive
o que vi
o que sonhei,
quem amei, se amei
que eu me lembre:
viver
afinal
sem dor,
sem aprender a sentir dor,
é viver pouquinho,
quase nada
se me lembro
se vi guerras
se matei
ah, se matei não esqueceria
mas desejei tanto tantas vezes
que morri, quase morri
sem exageros
no entanto
o que penso é estranho dizer
porque não penso tão claro
pra dizer
mas onde estive
às vezes lembro
quando lembro
quem amei
se amei,
afinal

(agosto, 1989)

09/06/09


Manuel Vilariño
natureza morta

vejo apenas um seio
pela porta que se fecha
a casa está tomada
de heras até nas janelas
as visões começaram,
as alucinações, ontem
tudo apareceu pela metade
numa força desmedida

um olhar, apenas um,
me roubou a inocência
foi então que disse adeus
e voltei para dentro
mas não havia mais casa
procurei seu cheiro,
minha saudade, seu desenho,
não havia mais humanidade

preparo as tintas
separo os pincéis
o caos pinta seu próprio retrato

(junho, 2009)

08/06/09


Rubens
a respeito de poetas e anjos

- Todo poeta é um anjo trágico - disse-me Clóvis, também poeta. Walter atravessou a tragédia e campos de guerra, mas curou feridas e celebrou a vida. Neto vedou as frestas e abriu o gás. Allen chorou e uivou sobre o leito de despedida de sua mãe; arrastou multidões para campos de paz e celebrou a vida. Gregório caminhou pela linha férrea com seu pequeno filho sobre os ombros e a mochila lotada de relógios esquecidos. Arthur trocou a palavra e a corte por desertos, com um embornal de ouro na cintura e camelos carregados de armas, panos e especiarias. Ana saltou pela janela. Ferreira destratou Samuel, que já morrera, dizendo que bons poetas não discorrem sobre o tédio, mas celebram a vida. Perdoe-me, caro Ferreira, o tédio também faz parte da vida. Jacó recebeu Gregório na soleira de sua casa entorpecido por birinaites e arrebites. Carlos virou estátua fria, sentado num banco de avenida em plena cidade do Rio de Janeiro. Jonas - que sou eu - passa pela vida como folha levada pelo vento e não vê crescer sua filha. Lourenço iluminou a cidade com seu parque de diversões na cabeça. Federico desapareceu. Jorge ficou cego, mas leu a humanidade toda. Mario virou passarinho em seu próprio quintal. Paulo, que falou todas as línguas, morreu de saquê e de judô.
Imagino todos os poetas numa roda, ciranda de índios, em algum lugar não muito distante, gesticulando, falando alto, entornando bebida, guerreando, criando a paz e celebrando a vida.

(novembro, 2007)

01/06/09

antes, a infância

por onde o rio passeava
deixava marcas de música
nas pedras

(junho, 2009)

27/05/09


Pedro Martinelli
preparativos de viagem

há uma verdadeira batalha
entre o que pode
e o que deve ser dito

numa pintura campestre
(quase sem necessidade de existir)
um pastor leva seu rebanho
apenas movido pelo costume
mas sem aparente ambição
verdadeira em alimentá-lo

numa canção que atravessa
os quintais as ruas este lugar
tudo que nos interessa
além da vida que segue
é uma nota que nos abençoe
uma invasão que nos ilumine

num livro sobre a mesa
uma história de segredos
paixão e sofrimento
caí a neve sobre todo o país
enquanto os amantes se calam
se perdoam e se abraçam

de todo modo
uma pincelada persegue
uma nota musical que persegue
uma lágrima de amor

tudo existe como coisa única
sozinha, mas, por ora
deixemos de lado este
eterno e triste assunto:
a luta entre o silêncio de Deus
e as palavras dos homens

a bagagem nos aguarda
é o momento certo de partir

(maio, 2009)

22/05/09


Manuel Vilariño
o silêncio

Estou cansado demais para respirar
novos ares. A montanha me espera
mas fico aqui mesmo separando roupas
que deveriam aquecer e não aquecem.

Os retratos dispostos em frágil ordem
(como a velha verdade dos profetas)
disputam atenção com o sol que estala
na parede, por isso espero o sono dissolver
a tarde enquanto os planos de viagem
ficam ao lado sobre a mesa da cabeceira.

Estou cansado demais para procurar
a exata prece neste caderno que tanto dura.
Eu, que vivo tão desocupado de palavras,
desenho um definitivo sinal no vento.
(maio, 2009)

20/05/09

o adeus

tanto tempo depois
ao fechar os olhos
ainda vejo
uma porta entreaberta

(maio, 2009)

14/05/09


Van Gogh
retrato do artista
quando velho bêbado

qual o peso do mundo? onde ele se apóia?
de nada adianta querer mudar minhas falas
de nada resulta meu espelho ornado de memórias
meu passo meu perigoso passo quase desmorona
sento aqui como antes sentei e senti, hoje
desejo mais o que vi do que tudo que toquei
desejo mais o olvido do que ouvir, mentira
não desejo esquecer, traga-me um outro alívio
traga-me algo que não isso sem sabor sem
essência, sem turbulência, passagem e eternidade
(maio, 2009)

12/05/09


Manabu Mabe
meu cigarro

tudo que trago
é poesia
não com peso
ou volume
somente
um mundo inteiro
inspirado

também sopro
poesia
não em solto
espasmo
às vezes numa nuvem
uma vida toda
de fumaça
(maio, 2009)

04/05/09


Evandro Teixeira
num dia qualquer de 1975

tudo o que fiz foi por posse
uma nuvem, um barco, uma arma
tudo quis reter aqui mesmo
mas desceria uma vez ainda
como hoje, um dia sem medos,
apenas olhando o trânsito
e cãezinhos órfãos deixados
numa caixa numa esquina

cruzando o dia sem posses
como disse o poeta: “é indiferente”
deixei tudo lá atrás quando
carro, casa, água, fumaça, amores
deveriam valer a pena mas
atravesso o dia perseguindo
seus passos na avenida
amaria mais uma vez a idéia
de que lutar vale a pena
você que sequer conheço
vem e ultrapassa minha vida
sem licença, apenas repetiria
tudo o que fiz foi por posse
quem sabe não desta vez

(maio, 2009)

29/04/09


Edward Hopper

cidade natal revisitada

nunca abandonei aquela guerra
as ruas mudaram de nome
você mudou seu nome e de lugar
foi para um apocalipse mais perto

as cercas os muros onde me encostava
na calada, assoviava baixinho ou cantava
não faz diferença faz tanto tempo hoje
vivo numa outra vila uma vida bem longe

nunca venci guerra alguma
ninguém vence nem no amor
nem você gritando meu nome
ecoando sempre ecoando se me lembro
me puxando pelas lapelas
senti em seu hálito um perfume único
lábios firmes e sílabas fortes
e o roçar de dedos no meu rosto

e quem passava pensava que éramos amantes
(abril, 2009)

28/04/09


Rauschenberg
haicais

I
todos se foram,
o cão está morto
não há nada que eu possa sentir

II
escrever poemas
como quem escreve cartas,
levantar e partir sem olhar para trás

III
caminhando na chuva
um anjo passa,
ele sabe o que eu sinto

IV
depois da viagem
lavo os pés,
limpo os sapatos

(janeiro, 1998)

15/04/09


naquela noite
com chet baker
no palco ensinando
joão a cantar
gilberto certo

e drinks copos tilin
se sou louco
não sou o único
senão veja o palco
sobre nossas cabeças

peça outro
vinho menina
e ouça rapaz
estamos todos ali
transpirando luz
(novembro, 1985)

13/04/09


Caravaggio

evolução natural

nós, apenas homens,
aqui parados
entre os símios
e os anjos

aqui parados
e apenas parados
com o dom das palavras

(julho, 1972)

07/04/09


Henri Cartier-Bresson
não é o sono

ela me dá adeus
com a mãozinha
por trás da passagem
da porta chamando

talvez nunca mais
escreva bilhetes
poemas porque
a moradora do andar
de baixo reclamou
dos gemidos
e das paisagens

e pensar que quando
vínhamos para casa
vimos dois trompetistas
com dedos iluminados
lábios inchados de música
uma puta na sua vida
lutando por sua vida
e os taxistas
com copos de café nas mãos
à espera de bêbados
(junho, 1988)

30/03/09


Enki Bilal
de volta, indo

O coração na garganta,
como uma faca
e a falta de direção.

Repeti a mesma canção:
o amor é para poucos,
a felicidade não acontece.

Vi povos inteiros
extinguindo-se
na busca do eterno.

Vi mundos em guerra
incendiando a noite
como num filme.

Tudo por nada.

(agosto, 1984)

25/03/09


Edward Hopper
Uma Tarde Após a Morte de Pavese

Numa tarde de tantos ventos
que exala da terra o cheiro de todas as coisas
que esconde conversas sobre os que passaram
e exibe uma janela cheia de encantadas despedidas

Poderíamos avançar sobre ela
caminhando juntos todos os antigos amigos
desses que se protegem e compartilham
pão, vinho, carinho e palavras sublimes

Poderíamos descer nossos olhos
pela encosta da montanha que margeia
nossa aldeia e ver que sobre ela ainda paira
um minuto de silêncio numa fagulha

E uma lembrança tão densa do que fomos
e um vislumbre do que seremos ainda
enquanto sua imagem desaparece
poderíamos outra vez prantear e lembrar sua poesia
(março, 2009)

19/03/09


um encontro de amor
- pra Preta -

Pés miúdos, tão brancos,
com as plantas voltadas para cima.

Quando me aproximei,
girou os olhos para o alto,
deitada, e dobrou uma das pernas.
Sempre desejei viver no céu na terra e disse:
a terra mora no céu, é aqui o lugar que merecemos.

Quando isso acontece, cresce dentro de nós
o que já havia nascido muito antes de tudo,
já estava lá o seu cheiro antes do primeiro suspiro,
do primeiro fogo já estava lá seu brilho
bem antes de existirmos.

(janeiro, 2009)

14/03/09


Edward Hopper
blues

nada
nem pétala
sequer
a mexer-se

caso pétala
houvesse
ou vento

caso pétala
houver
ou/vir
o vento
(setembro, 1978)

11/03/09


Goya
sinal dos tempos

ali
pendurados no cosmo
vemos
um cavalo gigante
o áspero tempo
anões e cinderela
como num vulto

e uma estranha valsa
estranho medo
(julho, 1970)

05/03/09


Caravaggio
aqui dentro

penso
na palavra dentro da palavra
enquanto
o que aquece é água
(não há como olhar o futuro
e desprezar o sacrifício).

o tempo aquece
a água dentro do bule,
enquanto
o jardineiro apara o dia
com seu chapéu que é sombra
(a dor é uma tempestade).

(há uma palavra presa aqui)
lembro
do chá dentro da xícara
que por enquanto é nada
e existirá apenas
quando provar seu sabor.

(novembro, 2007)

03/03/09


num outro lugar

num momento incerto, ela volta
exigindo pássaros nos seios
segredo nos ouvidos
e uma paisagem interior

por mim
estaria em outro lugar
que não fosse tão belo
que não fosse perdido

que não fosse
(março, 2009)


desespero na cidade

hoje a noite não tem
ela desapareceu quem sabe um condor
a voou sem deixar rastros
bilhetes
hoje a noite não tem
sax
tem vento e cigarros
um atrás
de outro carro veloz música
alta
sem vestígios
nem sotaques ecoam
desapareceu quem sabe helicóptero
levou mas deixou beijo
no pescoço que eu lembre
disparado pela cidade
desesperado a toda pressinto
que logo de manhã
à primeira luz
se quiser,
Deus, esqueço isso
(dezembro, 1987)

02/03/09


Van Gogh
outra vez

tão simples

estava quente
adormeci olhando a janela
sobre seu ombro

estrada sem ondes
subia a poeira pouco após
a passagem da carruagem
que descia sem parar
sobre a sombra de seu ombro

olhando, agora lembro
(julho, 1992)

27/02/09


Newell Wyeth
a vida em família

a idéia de felicidade
é que destrói nossa casa
vamos falar sobre o medo
enquanto as crianças dormem

olhe através da vidraça
há lixo por toda parte
você parada na cozinha
pé direito apoiado no esquerdo
púbis encostado à pia
há lixo até aqui dentro
escondido
em negros sacos plásticos
pó sob os tapetes
e nos vidros dos portarretratos

há medo por toda nossa casa
enquanto aperto seu corpo
e uno minha alma à sua
e nossas crianças dormem
(novembro, 2007)

25/02/09


Raymond Depardon
um gesto

("Assim, creio, sucederam-se as coisas."
- J.L.Borges -)

uma voz chama de fora
difícil interromper
tudo por uma voz
olhar lá fora

não há garganta alguma
mas viu seus olhos sábios
seus olhos mundos
foi o que viu
não pode ir
não há nada
não há nada

um homem pode perder-se
pode ser derrubado
ao ver o que há dentro de si

volta, senta-se
há um agudo segundo de silêncio
antes do estampido
(maio, 1989)

18/02/09


Caravaggio
questão de tempo

Separar-se da vida,
da crueldade do tempo.

Separar-se dos sentidos,
da pele e do medo.

Separar-se da memória
que é só o que temos,
e que mesmo assim
se desfaz.
(julho, 2006)

16/02/09


Velázquez
nesta festa

("É daqui que eu tiro versos, desta festa"
- Ana Cristina César-)

tudo me tenta provar
como quando se acaso
der na lua
aqui sento me sinto
a testar textos
e bater cabeça
porque toco a pensar em traduzir-me
talvez tratar-me humanamente
porque não
assim quando
cá só ao acaso
me sento
a pensar
me tira pra dançar
me tira
(novembro, 1984)

12/02/09


Rembrandt
as palavras

cada um tem seu drama,
sua queda, suas contas

você vê o que se extingue
e o que nasce

um animal acuado
o resplendor
um seio que alimenta
uma mãe
e a mão que tortura

cada um tem sua pena
a palavra e o silêncio

você vê
você navega na terra
numa floresta
num incêndio sob chuva
e então compreende de onde veio

(fevereiro, 2009)

10/02/09


Salvador Dalí

do amor

olha nos meus também
ora, é só o que peço
não os seus pés
que é o que mereço
olha para o que aponto
além disso e mais nada

falta, tão simples, tudo
indo por onde
pergunto se me dano mesmo
e quem ouve entende
ou finge então saber que viajar
não é o outro, o lugar, o tempo
mas apenas o que vivemos
e isso é sempre assim
bailando eterno como um pêndulo
como quando desço ao inferno
terno de seu centro

(julho, 2002)


Renoir
folhas de viagem

Para que pudesse outra vez sentir,
desejar duas luas inteiras
– uma falsa, refletida por seus olhos –,
estive pronto, excessivamente disposto,
a deixar de lado estes planos de viagem.
Mas quem viria por aqui, senão eu?
E encontraria o quê o outro, se outro houvesse?
Essas lágrimas de árvores estendidas
depois de voarem de suas casas até aqui,
repousam, folhas e folhas,
juntadas solenemente pelo redemoinho,

filho do vento, e ainda aqui enfileiradas,
olhá-las sem ternura, para descobrir o quê?
– Pudesse eu ler em suas rugas,
como se fossem folhas de chá no fundo de uma xícara
que guardasse meu mais íntimo segredo futuro:
como levantar-me daqui e ir
sobre este chão mais que delas.

Mas não houve luas, nem seus olhos.
havia a trilha seca aberta
ladeada a séculos por húmus,
e depois do sol passar inteiro
– não como a lua, inteira, que sonhava ser duas –
sentar-me aqui como um pássaro sem pio,
as palavras do regato mais abaixo escorrendo,
o perfeito silêncio do gordo pássaro marrom acima,
nuvens gordas cinzas que trespassam-se mais acima ainda:
sim; silêncio de pássaro canoro,
palavras de água, prenúncio de chuva.
É como se elas, folhas,
filhas do céu, houvessem decidido em definitivo
que não há pousada aqui para o solitário passeante.

Para que possa novamente sentir,
desejar memórias, é necessário ir.

(maio/setembro, 1993)

06/02/09


Velázquez

uma vez

saiu da casa
com o café da manhã quase intocado
o vento comendo as cortinas
da sala, a mesa voando
a xícara, o suco, os pés
deixando marcas inesquecíveis na areia,
por entre as árvores palmeiras
as mesmas palavras da mãe
o silêncio do tempo, um menino indo
avançando sobre o mar

- Vi suas asas, Ariel
(fevereiro, 2009)
dá um calorzinho
esse conhaque sem lua

e os quatro curvados cantores
lá embaixo
sem sono e calados
sob a luz do poste


recosto-me na cadeira,
o relógio
e o Gregory Corso
e a Emily Dickinson
sobre a mesa
e o líquido dos copos
tremem doces

dá uma certa calma
não saber do futuro
não ter planos nem desejos
em obter mobília ou lenha
ouvir vozes infantis insones sem balbúrdia,
mas quero descer meus olhos
uma noite ao menos
no Ganges sob a lua

os quatro cavaleiros se vão,
um deles assovia mansamente


(novembro, 1987)

04/02/09


Courbet
um mundo perfeito

se porventura um dia
o conhecimento e o amor
me oferecerem abrigo e coragem
ou ainda aquilo tudo que sempre odiei:
desespero ou beatitude
e o desespero e a beatitude
a eles mesmos retornarem
como dádiva e comunhão humana
ou se acaso também o vício e a luxúria
em meu corpo transformarem
a febre em sobriedade
e se a febre e a sobriedade
forem tudo
o que tanto em mim é sobra,
e se o que me cabe seja apenas
pele, desejo, suor, loucura e tédio,
se novamente, quem sabe,
o conhecimento e o amor
a mim se ofertarem,
se porventura um dia

(agosto, 2000)

30/01/09


Van Gogh

dos astros

O sol dividiu-se em dois.
Um, posiciona-se sobre o horizonte,
preso aos seus olhos,
navegando, navegando.
O outro, perdido,
influenciará em suas escolhas, sua fortuna.
Mas nada disso importa.
A lua,
muito menor em seu destempero,
habitará em sua casa do sono,
infligirá à vigília, ao suor noturno,
ao remorso e às lembranças.
Saturno (desviou-se tanto de seu curso,
que suas próprias luas
desertaram, Europa à frente,
com seu mar de sonho e piedade)
lhe trará sorte e saciedade
se acaso alguma vez retornar
ao seu lugar.
Seu dia será como tantos outros,
cruzará temeroso sua cidade
e com temor voltará à sua morada.
Se você for fiel, fidelidade lhe será devida.
Se for bondoso, a bondade lhe servirá
ainda em vida.

E assim prosseguirá,
até que amanhã...
(novembro, 1999)

20/01/09


Salvador Dalí

as leis da memória
Esqueci o que é contar.
Não estórias, não misérias.
De contar números, dias,
desde a última vez que a vi,
as folhas do calendário,
ingredientes da receita,
colheres de tempero,
folhas de chá, síncope de beijos,
árvores da floresta, quantos juízes,
desertos, a imensidão de noites
sem dormir.

Esqueci
quantas vezes voltei
depois que descobri
que meu lugar é aqui.
Quantos sou, quantos fui
e quantas palavras ouvi.
(abril, 2008)

08/01/09


extermínio

Perdemos nossas noites de sono.
Chove sobre Gaza.
Quando essa guerra acabar,
não haverá para onde voltar.

E crianças adormecem
no coração dos homens.
(janeiro, 2009)

07/01/09


Caravaggio

gêmeos

penso em dois mundos distintos,
penso tanto que dói.
uma paisagem, a arte, crianças, o afeto
não me distraem, portanto
nada me distrai

penso em mim como dois seres:
o que aborta e o que cultiva,
o que cria e o que arruína,
vocês sabem: aquele que adora
e o outro,
o que não vê, não promete, não entende,
não entende principalmente a noite
o dia, os dias, a calma deles, a inquietude dela,
o silêncio, a ruptura e a absolvição


(dezembro, 1999)

06/01/09

fogo do fim

me cansa falar
renego certos convites
sem fogo no final
e janelas brilham

é a tarde incendiada
é o enxame natural
e a pior loucura é aquela de sempre,
sem mudanças
prefiro olhar para fora,
quieto em mim,
sem ouro ou tesão

vejo, apenas, o calor das horas
que ficaram no sofá
o suor que ali secou, meses a fio

querosene no carpete. fósforos.
labareda até os lábios.
bato a porta, jogo a chave no jardim
(setembro,1987)

31/12/08

véspera de outono

o sol muda o rumo
inclina seu descontrole perfeito
o futuro corre
e não tem segredos

de um lado, dois cavalos num quadro
de outro, a eternidade ondula verde

os cavalos: um castanho, pescoço curvado
focinho apontando a terra
outro, tordilho, avança
montanha acima.

a eternidade não pede palavras


(setembro, 1984)

30/12/08


Ezra visita o túmulo de Joyce

modo de fazer

I
uma vela no canto
junto à história universal
e a cadeira, cansada

se ao menos pudesse
- você diria - uma poesia por dia
em pequenas doses para evitar a dor

mas não; em frente à cadeira
o tapete de pelo e a imobilidade
(são os dias que se alinham mudos)
dos livros na estante ao meu lado

você diria outra vez:
acender a vela e orar todos os dias,
que o homem persegue a si mesmo
e a perseguição é o destino do homem

mas aqui; sente-se nesse lugar,
deve ser tarde
não olhei o céu desde que você chegou,
você pode admirar os objetos sobre a mesa
pode também pousar as mãos sobre as teclas
e acionar a tela em branco

agora você pode começar

II
você pode começar assim:
as folhas caem devagar
agora no outono as folhas secam
e há duas ou três coisas que você faz
antes de pensar em continuar

por exemplo: acompanhar com o olhar
o curto vôo do inseto pela sala,
massagear as têmporas com os dedos indicadores
alternadamente, invocar
o anjo mais próximo disponível:

por favor, acomode-se desse lado
o esquerdo, sempre,
e permaneça aí o suficiente
para que se inicie a trégua
sim, a paz

o anjo lhe sopra o olvido
mas sua alma não se concentra
seu olhar voa pela sala
até se deter na fotografia:
o velho Ezra em seus últimos anos
visita o túmulo de Joyce em Zurich
há folhas secas sobre todo o chão
deve ser outono
olha diretamente nos olhos do irlandês-estátua
há um pequeno muro de pedras irregulares por trás
Ezra parece indagar docemente:
e agora?

III
e agora afaste as lembranças
não há nada que possa impedir

a janela aberta remete aos quadriculados
de Mondrian
(lembranças, já foi dito, afaste-as)
só falta colorir
um pedaço de parede branca
unida em ângulo reto à telha cinza
sustentada por travessas de madeira
o muro de concreto ao fundo junta-se
a uma pequena faixa vertical
de parede azulada pela luz do entardecer
acima de tudo no canto direito
um triângulo perfeito de azulcéu,
cinzazul anoitecendo

e o barulho da tarde cai
nuvens tropeçam e as gotas caem
procure não reclamar
afaste as lembranças

IV
não reclame a falta de ação
as plantas talvez precisem da luz direta
do sol
então você move os vasos até a janela
muda para o centro da sala a mesa
a cadeira
em frente à porta
por onde o vento entra
você pode sair por ali
dar duas voltas na chave
afastar-se com o chaveiro na mão
ainda pelo corredor notar as manchas
no chão da água da chuva do dia
anterior ao frio de hoje
anterior ao vento de hoje

afaste-se
nunca reclame
mesmo sem rumo
(fevereiro/abril, 1992)

29/12/08


Manolo Valdés
mapa do meu coração
(“Atravessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.”
- Ana Cristina César –)

Canais, ruas de ontem. Casarios.
Ali morei derrotado e vivo.
Lá não morei, mas morreria.
À sombra, agora ao sol,
pensamos juntos, andamos perdidos.

Depois encontro você, inteira,
com dois berços
e uma canção de ninar nos lábios.
Olho para o mar enquanto você canta.
Mais tarde não terei palavras.

Areia sob os pés.
Aos seus pés.
Olho barcos num movimento de vento.
Sinos. Tarde que vai.
Não tenho mais para onde ir.
(fevereiro, 2008)

lira dos 55 anos
Já fui vários. Fui tolo. Fui também sábio, segundo dizem. Criança, subi aos céus ouvindo preces à tardinha. Pensei ser único, estava certo, estava errado. Já fui tantos. Já fui Tonto mas sonhava ser Zorro com capa negra e um corcel inventado no quintal de casa. Fui El Cid no mezanino da garagem, com escudo de madeira e espada de matéria plástica. Peguei febre, dormi dias seguidos. Quando acordei, já tinha cabelos compridos, uma mochila e apetite de adulto. Tomei um trem aos 18, fui parar em Cochabamba no meio de uma revolução. Amei todas as mulheres do mundo, ainda amo, às vezes. Traí, já fui traído. Amei minha vizinha, caí da motocicleta, ganhei milhões, perdi tudo. Já fui muitos, fui ninguém. Fui da tribo, pegamos a trilha e beiramos o Rio Assungui tomando cachaça, comendo guisado e cheirando lança-perfume. Me casei, me perdi. Sofri tanto que cortei os pulsos. Deu em nada, nem cicatriz. Fui poeta alucinado nas noites, nas ruas de São Paulo. Dancei no Madame Satã, ouvi Ira no Lira, bebi no Pirandello. Fui funcionário público, dono de bar e viajante vagabundo. Fui vários, fui tantos, fui muitos. Viajei nas asas do Correio Aéreo Nacional, já fui pássaro e me feri. Passei noites inteiras inventando um novo país no balcão do Longchamp. Levava uma vida boa no bar Longchamp. Vi tantos filmes que me esqueci. Amei Maureen O'Hara, depois Claudia Cardinalle. Amei Kim Novak e Romy Schneider, mas depois desisti. Li Lautreamont em pé no onibus cheio. Devorei Rimbaud. Celebrei Baudelaire, me embriaguei. Fui desaforado e tímido. Fui vários, fui muitos. Aos 40 dei uma parada, quase enlouqueci. Viajei, mudei, aprendi. Hoje sou pouco, quase nada. Acredito em Deus. Tenho amigos da vida inteira, alguns já perdi. Trabalho feito um mouro, mas às vezes fico parado na esquina olhando carros, contando estrelas, assoviando baixinho e avisando aos transeuntes: “posso estar certo, devo estar errado, sou o homem que sempre quis ser”.
(maio, 2008)