o telefone toca, deixo o livro de lado
é o bom amigo Büll:
– tá fazendo?
– soletrando dores com o velho Chinaski
– bora tomar umas?
– onde?
– no Rota 101
– desculpe, velho, me recuso a entrar
num lugar chamado Rota
mesmo sem nunca ter ido ao lugar
imagino o movimento
e todas as moças
todos os quadris
todos os joelhos
e o peso dos silicones
que faz inclinar
o eixo da Terra
prefiro o Bar do China
em frente à rodoviária
onde os onibus chegam e descarregam
outras moças
com outros pesos
nos ombros
eu vou pro fundo do bar e o China traz
uma cerveja sem cápsula
lá pela segunda
lembro de um texto do Nilo
sobre um outro China
e eu sorrio
sozinho
na volta pra casa
enxergo ao longe
e aceno para os conhecidos
da alta sociedade interiorana
que estacionam na porta do bar da moda
aqueles mesmos que sempre me perguntam
se sou um sujeito bem sucedido
e eu sorrio
sozinho
eu sou um sujeito bem sucedido
pelo menos quando
me aplico
uma dose
que me faz esquecer
por instantes
dessa exasperante
dor nas costas
(novembro, 2009)

















































































