30/01/12

ENCONTRO DOS POETAS INSONES

Numa noite
cheia de tédio e heroísmo
desespero, saciedade
caminhamos
mais uma vez
sob chuva
e fomos a chuva
Em nome do amor, da rebelião
naquela noite clamamos sob o torpor
do vinho
e fomos o vinho
De um lado
ou acima
     pouco importa
choveu e choveu
Um disse
estamos a salvo
Outro calou
mas sorriu
como se declarasse amor
mais uma vez
ao vento
E fomos o vento
Somos tantos
apaixonadamente plenos de raiva
e separação
Somos tantos
uma insígnia
ao lado de outra insígnia
estrela ao lado de estrela
     Pouco importa
Declaramos guerra
à guerra
Mais uma vez
não estaremos a salvo
(janeiro, 2012)

26/01/12


Costa Dvorezki


A ÚLTIMA NOITE NO INFERNO

Eu recordo:
a tempestade era uma cutelada
na nuca
que me derrubava
e me levantava.
Havia uma palavra presa
nos meus dentes,
depois ela escorria garganta abaixo.
Eu corria?
Nosso nome
era família.
Meu amor descia,
eu caía
e depois levantava
como se fosse um vapor
nascendo do meio-fio.
E depois?
Bem que podíamos
ouvir uma oração.
Eu corria?
Agora eu sei,
tudo pode ser resolvido
com serenidade,
então
recita novamente os versos
que eu criei pra você.
Ainda tenho seus olhos
grudados nos meus.
(janeiro, 2012)

24/01/12

A VERDADEIRA VIDA
DE DALE TURNER

Por volta da meia-noite
é tudo diferente em NYC.
Eu digo
ou imagino
que digo
ao melhor amigo:
viver em Paris,
ou morrer em Paris,
é muito fácil.
Todos têm medo
do que eu possa fazer com a grana
que ganho na noite.
Eu vivo ali,
no palco.
Eu digo ao doutor:
minha vida é a música,
sonho com acordes
e as notas são impossíveis
de esquecer.
Eu sonho com Chan,
minha filha
de 15 anos.
Ela fala baixinho:
“14 anos, pai”.
É assim que eu sou.

(janeiro, 2012)

16/01/12


Alexey Titarenko
EMBRIAGADO

espera um pouco
deixa eu falar
estava voltando ontem à noite
você entende muito bem
o que estou dizendo
aquele entra e sai
cidade do interior é assim mesmo
passam até uns camaradas
a cavalo
com chapéu e tudo
e eu ali parado
esperando o tal do Bob
que não chega
que não chega nunca
aí comecei a arder
parecia febre
ou sono
mas eu ficava olhando pra Josy
sentadinha
bem na entrada da loja de conveniência
ela tem uns olhos muito sugestivos
parece coisa de cinema
e ela cantava umas músicas
do Mettallica
uma atrás da outra
o inglês perfeito
as letras certinhas
e o Bob que não chega nunca
o ar tava ficando meio pesado
acho que era por causa da hora
sabe como é que é
cinco da manhã
no posto de gasolina
cheio de gente
quase sempre é assim mesmo
então
eu falei pra mim mesmo
vai dar merda
daquele jeito que eu falo
e que você conhece
espera aí
não acabei de falar ainda
escuta só
o Bob me levou 20 reais
e eu sem moeda pro táxi
então resolvi voltar pra casa
andando
foi quando o Maurício
passou roncando naquela moto dele
me viu
parou
e disse
vamos tomar mais uma?
(janeiro, 2012)

12/01/12

DOR E SOFRIMENTO

outro dia
o Duda me chamou de esquelético
deve ser uma coisa boa
ele é um cara que fez escola
aprendeu tanta coisa
mas hoje não amarra nem os sapatos
anda como eu
meio bambo
gosto da palavra bambo
parece música
música é uma coisa que me faz bem
mas eu fico olhando pro chão
procurando pedrinhas
enquanto meus dentes estão sempre sujos
a língua suja
os pés sujos
ando sempre pro lado que a fumaça voa
é tanta gente ao meu redor
outro dia me chamaram pra conversar
eu não consegui entender nada
eles querem
que eu volte pra casa
que eu corte as unhas
eu dou risada dentro de mim
bem quietinho
não sei o que é uma boa conversa
desde que meu avô quase me matou
antes a gente falava um com o outro
ele também ria pra dentro
quietinho
agora
quando eu fico cansado
eu durmo
quando eu não tenho mais sono
acordo
um bando de homem
fica me empurrando pra fora de mim
está tudo bem
não tenho pra onde ir
não faz mal
estou indo
mesmo assim

(janeiro, 2012)

08/01/12


Alexey Titarenko
O OUTRO NOME DE LALO ARIAS

meu nome é diapasão
encontro de notas
num vibrafone
e contracanto
paz na terra também é meu nome
carregador de crianças nos campos
de centeio
varredor de rua
limpador de entrelinhas
meu nome verdadeiro
é entrelinha
meu nome é Ana
foi numa outra vida
que fui minha mãe
meu nome é você quem diz
pode me chamar
assim mesmo
já tive uma outra vida
eu era a minha filha Luiza
também fui um dos meus pais
num certo instante
em Valparaíso, Chile, cerca de 1942
portanto
meu nome é Hugo
e também Murillo
estou voltando pra casa
meu verdadeiro nome é este
casa
lar
moradia
meu nome não se apaga
nem se inscreve
tive duas identidades
fui gêmeo
estou entre o fogo e a gasolina
eu fumo e tusso
ando por aí como se tivesse apenas
19 anos
estou com 58
mas tenho todas as idades que já vivi
eu estou por aí
às vezes sem nome
procurando quem cante comigo
pode ser uma música qualquer
mas que emocione
e estremeça a face
da Terra
eu estou na terra
enfiado até o pescoço
um dia desses invento uma canção
sem pedir licença
e todos vocês
vão entender o que digo.

(janeiro, 2012)

05/01/12

PARADA ESTRATÉGICA

Caros amigos, nada melhor
do que uns dias de descanso.
Voltarei em breve
com novos poemas.
Abraços e beijos.

19/12/11

SEXO À BEIRA DO ABISMO

era apenas um livro.
a capa guardava
digitais incompreensíveis
e um borrão de tinta
ou de café
- como é que se esquece
um acidente desses
ocorrido numa certa manhã
de abril?
uma manhã tão solitária
que dava pra sentir a toalha
sobre a mesa
aguardando uma companhia
além da sua.
a louça posta
o livro ao lado da xícara.
sua mão escolhe
uma página qualquer
com a outra mão
você acende um cigarro.
com a frase martelando
vai até a janela
do décimo oitavo andar.
você solta a fumaça
como se dissesse:
o velho Henry Miller
sabia mesmo escrever
sobre certas coisas.

(dezembro, 2011)

16/12/11



CIDADE DESAPARECIDA
REVISITADA

o sol não é farol
para quem fez um tour
pelo fim do mundo.
tudo está lá
tombando
entre o claro
e o escuro
cada vez mais
denso.
quanto menos cores
mais letras selvagens.
e nenhuma ternura
a não ser aquela
encravada no seu olhar.
(dezembro, 2011)

11/12/11

EVA

foi assim mesmo que ela apareceu
encostou o braço no batente da porta
nua
cruzou as pernas
fazendo ponta com um dos pés
à minha frente
sob os mil graus da água do chuveiro
num chão de azulejos escuros
ela foi o começo do meu dia
à tarde
sob o torpor da fumaça e do álcool
da noite anterior
fomos um fiasco ontem
ela disse e sorriu
eu daria meu último cigarro
se pudesse tocar outra vez aqueles lábios
mas isto já faz muito tempo
assim como tudo na vida
ela aparece vez ou outra na tv
e eu a vejo como se ela fosse aquela mesma menina
eu daria um dos meus olhos
para ver outra vez ela embalada dentro de seu sono
ou abrindo as portas da varanda
como um vento, logo de manhã

(do livro Cidade Desaparecida/Scortecci/2010)

30/11/11


Jack Picone
A CORAGEM

                     pro Rapha e pra Ná

eles pedem que eu me levante
e siga
até mesmo a garota mais bonita
da cidade
insiste
ela tem uns olhos verdes claros
profundos
quer dizer
o seu olhar é profundo
e fala como se uma avalanche
ocorresse sistematicamente dentro dela
e dentro de mim fica isto
as vozes dos amigos
que pedem
que dizem
não se preocupe
tudo ficará bem
o desespero é só um prenúncio
e prenúncio não é realidade
eles dizem
amanhã ou depois
você seguirá para Havana
escreverá seu livro
enviará cartas a todos nós
contando de seu amor por Marta
e sobre seus novos amigos
e de sua nova maneira de caminhar
abraçando a si mesmo
eles dizem
que eu sou um bom sujeito
um grande amigo
generoso e fiel
que as pessoas se emocionam
com as minhas palavras
e eu digo que as palavras
são de todos
elas estão sempre voando por aí
e que eu apenas as recolho
e invento uma nova ordem
(novembro, 2001)

23/11/11

O CÉU VISTO PELO AVESSO:
é assim que entendo
uma certa poesia
como aquela que fala do homem
que cuida de um farol
em Violet Island
onde tudo é imenso
e certamente a solidão
também é imensa
mas lá a luz não se dissipa
apenas porque avisa
pequenas embarcações
e varre obscuros povoados
numa terra de pescadores
não
aquele farol ilumina as sensações
toca almas tão distantes
como a de um velho poeta
sentado em um café
em Bruxelas
a piscar entre o sono e a luz
que sua própria alma reflete
ou pensando no vigoroso mar
do Caribe
e seus peixes brancos e cegos
ou lembrando Neruda
exilado em sua ilha
exalando adjetivos imortais
ou então recitando
num tom quase inaudível
um verso de um outro poeta
iluminado
solitário
que toma seu café
e cuida de seu farol
do outro lado do mundo

(novembro, 2001)

22/11/11


Gilbert Garcín
VETERANO DE GUERRA

Duas horas da tarde em ponto
e a chuva veio de todos os lados
Era como se uma multidão
tivesse ao mesmo tempo
uma saraivada de lembranças
Coisas tão antigas
como um campo de extermínio
Ninguém gosta que eu fale
sobre a barbárie
pois então escrevo
quase esquecendo
que a chuva
em seu esplendor
afoga na mesma medida
criaturas indefesas
e criaturas bárbaras
E é como se agora
sorrisos impiedosos
estivessem a queimar
a pele
a sua
a minha
a da criança
na fotografia
Já vi horrores
Estive nos campos
Estive nas cidades
Subi e desci
Trouxe corpos
sobre os ombros
como outros poetas
também fizeram

Converse com o tempo
e ele lhe dirá
que há neste momento
um cerco
que se fecha
Em breve
estaremos sitiados
mais uma vez
(novembro, 2011)

18/11/11

SELVAGEM

Comecei a morrer
pela primeira vez
numa manhã de maio
do ano de 1953.
As irmãs eram tão pequenas
quanto eu
apesar de terem vindo antes.
Bem antes
eu vira a expansão
– ou era aquilo o vagido? –
do universo
e compreender isto
seria uma outra história,
um novo nascimento.
Compreender
que quanto mais vivo estava,
quanto mais minhas pernas cresciam,
mais eu me distanciava
de mim.
A segunda vez,
ou seja,
o começo da segunda vez,
não importa:
títeres já habitavam minhas pálpebras.
As luzes da rua tremiam.
Eu sonhava sombras no berço
e os móbiles
tão antiquados
quanto é possível imaginar,
os móbiles voejavam
e suspiravam mais e mais sombras.
Era este meu canto de ninar:
paredes cobertas de notas musicais.

Seria um bom lugar aquele
se eu pudesse distinguir
o que era afeto e o que era terror.

(novembro, 2011)

14/11/11


Gilbert Garcín

CINEMA EM CASA (volume 2)

mi abuelo esculpia
em mármore
fazia peças para os túmulos
do cemitério São Paulo
descia pela rua Cardeal Arcoverde
parava em todos os botecos
onde bebia vinho tinto barato
depois
mijava atrás da igreja
do largo dos Pinheiros
e chegava em casa borracho
não
ele não se matou
mas dava a impressão
de que sempre esteve pronto
para desaparecer
meu pai foi diferente
mas de certo modo
forçou sua queda
em corridas de cavalos
duas vértebras partidas
uma lesão eterna
na coluna vertebral
uma fortuna perdida em apostas
sem contar
é claro
o caso
da diabetes
e da falta de vontade
em preservar a própria vida
bem
não vou negar aqui
minha nobre ascendência
eles foram
homens íntegros
perdidos
desamparados
desesperados
como eu
portanto
meus velhos
estamos quites

(novembro, 2011)

09/11/11

CINEMA EM CASA

sexta-feira é dia de compras
na verdade são poucas coisas
neste tempo de pequenas necessidades
e do cheiro da pólvora
da cebola
e do amor
não lavemos pois as mãos
e não deixemos mais que eles entrem
e nos tirem tudo
eles têm licença para roubar
eles invadem
a sala
a cama
o porão
alguém já falou sobre isto
mas é sempre bom lembrar
que meu lençol está esgarçado
minhas fronhas puídas
minha coberta é a mesma
de sempre
todas as noites
são noites de sonhos entrecortados
tenho a impressão
que na sexta-feira é sempre pior

(novembro, 2011)

31/10/11


Gilbert Garcín
O MAIOR AMOR DO MUNDO

Ontem saltei pela sétima vez
da ponte
A mesma ponte sem rio por baixo
sem trovoadas por cima
Imaginei um oceano
coroando a noite
como um mar de pétalas
que se junta
a um mar de pérolas
que resulta
num mar de pedras
rolando
por baixo da ponte
E o frio era tanto
que abraçar a mim mesmo não bastava
Agarrar o ar
revendo
um barco que aderna
por trás do horizonte
enquanto salto
pela sétima vez

(outubro, 2001)

27/10/11

JÚLIA

O pequeno chapéu
faz sombra
nas saliências rosadas
da sua face
Nos olhos
o sorriso:
algo que somente
os ilusionistas
são capazes
de compreender

(outubro, 2011)

24/10/11


Gilbert Garcín
NA TRILHA

Os sabores eram outros
Havia cachos de luz
e os respingos
atravessavam as copas
Algumas pegadas
ficavam mais leves
após o orvalho

Era bom
não saber
para onde ir


(outubro, 2011)

18/10/11

BASHÔ VISITA SENDAI

Calças arregaçadas.
Depois da travessia,
as águas do Natori
ainda abençoam teus pés.
Ser poeta,
Bashô,
é caminhar.
Veja:
os telhados estão pintados
de lírios.
Viver,
Bashô,
é encontrar o pintor
que te leva
aos campos
cobertos de púrpura
antes do outono.
Velhos arbustos ainda florescem
ao redor de Sendai.
É lá que o mundo diminui.
Há o bosque
e o raio de sol
que não cabe no bosque.
E no santuário de Tenjin
voa uma prece
onde cabe todo o por do sol.

(outubro, 2011)

14/10/11

A MAIOR DOR DO MUNDO

nasci sob as estrelas
segundo me contaram
os antepassados
eles atravessaram o oceano
para que depois
muito depois
eu sobrevivesse aqui
sob um astro de bilhões de anos
é o sol que me conta a verdade
todas as manhãs
mas estou surdo
e quase não enxergo
trago a humanidade toda
sob a pele
portanto
meu suor é desumano
tenho um abraço invísivel
para cada ser que encontro
mas nunca o estendo
nada sei dividir
nada sei repartir
nem mesmo sei escolher
qual aparência devo ter
um olhar enternecido
faria bem a todos
e me salvaria
e um sono de pedra
ocasionalmente
e um sonho de pedra
ocasionalmente

(outubro, 2011)

10/10/11


Gilbert Garcín
O POETA EM SILÊNCIO

tudo consiste num poema
talvez o melhor que possa ser escrito
ele deveria ser declamado
pelo autor
trazendo a palavra embalada
de tal forma
que despertasse gente grande
são elas
as pessoas adultas
e mesmo as que nunca amadurecem
as que possuem olhos bem crescidos
bocas difíceis de alimentar
ouvidos que percebem pássaros
em silêncio
atrás da lua
grandes pessoas com grandes mãos
em concha
estas sim poderiam ouvir o poeta
tudo consiste num tom de discurso
mas é um poema
que ensina toda a história
talvez a melhor que possa ser contada
nada que trouxesse o vazio
o amargor
palavras amargas causam distúrbios
difíceis de conter
já as palavras de paz são inconstantes
vão e vêm como rajadas
nada que existe é capaz de deter
palavras carregadas de paz
nem mesmo uma grande mão
ao pé do ouvido
em pleno deserto
melhor segurar um mar entre os dedos
entretanto
o poeta afina a voz e procura o tom
nada que traga melancolia
muito menos alegria excessiva
e não serão por acaso
palavras de despedida

(outubro, 2011)

29/09/11

DE PASSAGEM

(poema do livro Cidade Desaparecida)
Deito sempre entre duas e três horas da madrugada.
É sempre o melhor momento. É quando a vida aparece.
É quando ela volta sozinha ao lugar onde nasceu.
Sonho com uma cidade indistinta até me tornar rua.
Tenho tanto de você em mim que acredito ser você.
Um acorde flutua, aperto o parapeito até converter-me
em música e execução. Vejo o asfalto num relance.

Assim mesmo, num relance.

(julho, 2009)

26/09/11

RUMO A MARTE

toda a geografia
se alterou
mais depressa
do que poderia
imaginar
o que restou
lembra
um rio
sem margens

sei que eles
virão atrás de nós
eu devia dizer
junte
a ilusão à coragem
leve apenas
o necessário
para sobrevivermos
longe daqui

(setembro, 2011)

21/09/11

Caros amigos,
meu novo livro,
já está disponível
para leitura integral.
Para ler,
basta clicar sobre o título.
Abraços a todos.

14/09/11


Gilbert Garcín
O FIM, O INÍCIO

escrevo dor e enxergo a terra
em toda sua extensão
homens enlameados
carregando o peso do ouro
nas costas
e a fadiga dos lobos
e o descanso terno dos gatos
escrevo inferno e ele está aqui
sendo criado a meus pés
retorcendo as raízes
enterrando o ar
escrevo purgatório e ouço a voz
que é do purgatório
é ele quem grita poesia
poesia
poesia
o purgatório é um homem extenuado
escrevo céu e é o céu que traz noite
noite
e mais noite ainda
e traz a herança
o sossego
eu escrevo homem
e o homem está aqui
escrevendo paraíso
então eu imagino o lugar
onde estaremos
sem jamais perceber
escrevo terra e ela se levanta
sobe
sobe
e envolve a você e a mim
como num círculo
um tufão dentro de um círculo
que veste você
e que veste a mim
escrevo fogo
e o fogo é o encanto
é a flutuação
o fogo tem a mesma densidade
das nuvens
que sonham com o frio
e com a neve
escrevo ar
e desço
como um suspiro
desço
com a cabeça em seu colo
com as mãos em seus seios
escrevo água
e o incêndio se espalha
por todo o hemisfério norte
e os animais em chamas
correm
correm
para que eu possa continuar a escrever
infinito
e o infinito são as páginas de um livro
que me contam todos os assassinatos
deste e do próximo século
e eu caminho entre os mortos
eu escrevo verbo
e sua voz está lá
mãe de misericórdia
cercando tudo
até encontrar meu centro
escrevo silêncio
e a espada desce
justamente
quando estou de olhos vendados
e escrevo caos
e escrevo paz
e escrevo frio e o frio é o seu ódio
é o que você disse
que sentia por mim
é o que restou em mim
depois
depois
encontro o velho amigo encharcado
de álcool
e escrevo noite
e a noite é a imaginação
é tudo aquilo que faz
com que continuemos vivos
ou mortos
tanto faz
escrevo calor e o calor é lembrança
suicídio
desesperança
e reconciliação
eu escrevo dia e o dia é a ternura
é um coração que sangra
lentamente
no mesmo ritmo
de passos que se arrastam
para longe
de uma velha aldeia
escrevo miséria e a miséria
é um carrossel
é uma família inteira voando
sem conseguir pousar
e escrevo liberdade
fé ouro sopro melancolia
e a melancolia é a verdade humana
assim como quando
escrevo música
escrevo amor
essa palavra cheia de medo
de mágica e loucura
escrevo despertar e o mundo desaparece
com sua dor de mundo
ele não está mais em nenhum lugar
que não seja aqui
quando escrevo desprezo
quando escrevo medo
escrevo oração reza prece
escrevo solidão


(setembro, 2011)
A SOLIDÃO

Eu moro no fundo de um mar
A música que ouço é murmúrio
Meu jardim dança
em todas as horas
Os vizinhos aparecem
pelas frestas da gruta
que encontrei
quando pequeno
Há monstros sem nomes
que devoram gerações inteiras
Nada guardo
Caço apenas o que me mantem
vivo

(setembro, 2011)

12/09/11


Gilbert Garcin
A PRECE

Até que finalmente nos encontrávamos
Eu sempre cansado
os olhos esgotados
as mãos suadas
A espera
a espera tomara meu corpo por inteiro
Eu, retrato em tons de sépia
entre seus dedos
Ela me olhava durante muito
muito tempo
Eu prisioneiro
ajoelhado
no retângulo
do papel fotográfico
sem encontrar a saída

(setembro, 2011)

09/09/11

O MEDO

A vida passando
ao fundo
feito uma paisagem
depois do furacão
Não somente
a terra desolada
Não nós entre
nós mesmos
além do que somos
aparentemente
O que somos
está além
dos destroços
No chão
estará sempre
o que procuramos
por meses
agachados
com as costas arqueadas
Há um grão
aqui
e outro ali
Olha bem
o que encontrei
Este é o tesouro
esta é a lembrança
que faltava
em meu caderno
de recortes
E ao fundo
um sol
espiralando
como aquele
de van gogh
fugindo da tela
É desse modo
que eu espero
você chegar

(setembro, 2011)

07/09/11


Michael Ackerman

O DESPREZO

Perceber o afeto
Perceber
que ele
está no lugar
mais distante
Certa vez
um coiote
estancou
frente ao lobo
Mesmo assim
ele perguntou:
para onde você está indo?
(setembro, 2011)

06/09/11

O DESPERTAR

Não há dor no mundo
há o mundo
Ele olha pela escotilha
Ele flutua
Os dedos
pouco se mexem
sob a imensa luva
Não existe o futuro
guardado
nas mãos
Vagas estrelas
Vagas fronteiras
Vago oceano
Vaga escuridão
Entretanto
há um sol
que pulsa
acima
muito acima
e abaixo
muito abaixo
Mais uma volta
e agora é noite
Neste preciso ritmo
Outra volta
ainda
e ressurge a manhã
Benvindo
ao lar
coração

(setembro, 2011)

05/09/11


Edgar Mendoza Mancillas

O AMOR

Nenhum pecado
até aqui
Nossos medos repousam
Chegou o tempo
da perfeição
e de lembrar
e também de nunca mais lembrar
que fomos videntes
e tínhamos a fúria
muito antes
da desilusão
E que primeiro vinha a música
e em seguida o amor
Tudo que nos consumiu
descansou
Tudo que passou
sobre a pele
ficou por aí
como
escuridão e claridade
São estes os grandes artíficios
da vida:
a mágica
e a loucura
que se detêm
por tão pouco
e desaparecem
agora mesmo
aqui
à nossa frente


(setembro, 2011)

01/09/11

A MÚSICA

Sempre que você se aquieta
fico olhando
Deve ser a paz
chegando
Aí seus olhos
se fecham
e surgem
as melhores cores
da vida
Elas flutuam sobre seu sono
Seu corpo
é tão frágil
e o silêncio é tão completo
que o ar fica leve
leve
como se não houvesse
mais
nenhum pecado
que precisasse
ser absolvido

(setembro, 2011)

31/08/11


Cristiano Mascaro
A MELANCOLIA

A verdade veio
como num sopro
Assim mesmo:
sem proteção
alguma
Caminhávamos em grupo
enregelados
A vida é uma sinfonia
Não olhe
para os lados
Não se importe
nunca
com o que ocorre
à sua volta
mesmo que todos os pássaros
em queda
manchem o chão
Mais uma vez
não tínhamos
como voltar
A verdade veio
como num sopro
Eu deveria parar
o tempo
e contar
como tudo começou


(agosto, 2011)

29/08/11

O SOPRO

Tudo que consegui
foi isto:
o sucesso
É verdade
meu corpo comemora o sucesso
Tenho uma casa onde morar
comida
água
traças perfurando
as letras dos livros
uma dívida
duas dívidas
Um instante
Sim
Voltei
Contabilizei
todas
Elas são inumeráveis
Poucos me cobram
Devo estar nascendo
novamente
É a sorte
a velha sorte
que sempre tive ao embaralhar
e cortar as cartas
depois de fechar os olhos
e esfregar
com muita força
minhas duas mãos

(agosto, 2011)

28/08/11


Graciela Iturbe
O OURO

Eu e meu pai
na mesma casa
Muitas vezes
sou bem mais velho
outras vezes
nem nasci ainda
Não importa o que eu faça
ele jamais julgará
Ficamos
em silêncio
na maior parte
do almoço
Ele cochila durante as tardes
Eu escrevo cartas
de amor
Ele reza ao entardecer
Eu quero morrer
com o sol
e voltar a viver
quando a noite
se levanta
ou cai
Estamos em silêncio
mais uma vez
Eu e a noite
Eu
meu pai
e essa saudade
que não passa

(agosto, 2011)

27/08/11

A FÉ

eu viajo
eu escrevo livros
eu cozinho
têm noites
que eu choro
quase em silêncio
tenho dormido muito mal
desde que minha mãe
morreu
pra ser bem sincero
não durmo já faz
sete meses
também não consigo
me sentir bem
acordado
parece que certas coisas
caem o tempo todo
ao meu redor
coisas simples
como os dias
os dias
os dias
estão sempre caindo
ao meu redor

(agosto, 2011)

26/08/11


Danny Lyon


A LIBERDADE

Pouco restou
nada foi perdido
nem a paisagem
O contorno
de uma colina
e o desenho
do vento
rompendo
cada ano
cada eternidade
E há também
os dias
traçados a giz
cortados de 7 em 7
na transversal
Quase desisti
uma vez
mas voltei atrás
no momento
exato
Nada é inútil
estamos sempre
no momento certo
Por enquanto
oro
até que amanhã
bem cedo
possa eu ouvir
as portas da jaula
tocarem a música

(agosto, 2011)

23/08/11

A MISÉRIA

Ouça a voz
da chuva
Sofia
só ela protegerá
seus filhos
e sua beleza
Atente
para a carícia
Celina
ela está nas mãos
do inspetor do trem
enquanto
você cochila
A caçula
Ana
está perdida
ela traz um embrião
apertado
no ventre
sua casa
soluça
e treme
E não existe mãe
ou irmãs
não há nada
que possa afastá-la
do medo

(agosto, 2011)

22/08/11


Mary Chiaramonte

O DIA

Um coração
tão lento
como um amor
que descansa
ao final de uma guerra
O seu amor é um navio
que transborda
fugitivos
homens negros
mulheres
de todas as cores
crianças loiras
indígenas
sonhando no tombadilho
anciãos
de olhos bem claros
também escapam
tempo adentro
Eles levam quase nada
uns rastros nas solas
dos sapatos
tão antigos
quanto a aldeia
de onde vieram
Em seu coração tão lento
ressoam os passos
dos nossos antepassados
eles estão bem guardados
os passos
e são como a lucidez
que se ausenta
e que retorna


(agosto, 2011)

19/08/11

O CALOR

imagine o filete escorrendo
pelo seu braço
um filete escarlate
que se dilui na água
pode ser na água da banheira
o que é muito mais comum
mas pode ser também
na pia da cozinha
sobre os utensílios sujos empilhados
faz uma semana que você não se incomoda com nada
e agarrar a faca pode ser algo tão trivial
como olhar para a sujeira à sua frente
mas esse não é o modo certo
de morrer
há outros bem mais fáceis
um cervo quase voa pelo bosque
ele percebe o perigo
o caçador o cerca
o animal será morto
nós todos seremos
você já percebeu tudo
você conhece o mundo em que vivemos
você caminhou pelo bosque
mas isso já faz muito tempo
a ideia de morte ainda não lhe atravessava
mas havia sempre um caçador à espreita
lembra da noite em que a cordilheira
esteve sob seus pés
sua pernas balançavam do mais alto ponto da Terra
lembra daquela tarde em que caminhamos abraçados
em direção ao parque
que colorido era aquele com que você me olhava?
você foi embora
depois voltou
sinto muito
nunca mais estaremos juntos
eu lhe peço
suba até o último andar
lá sim
é o lugar exato
de olhar para cima
e de olhar para baixo

(agosto, 2011)

18/08/11


 Costa Dvorozki

A NOITE

Somos feitos de pura imaginação
A cada instante
imaginamos a nós mesmos
em vida
A cada instante
a imaginação insinua
que somos
ilusão
estranhamento
eternidade
e nascimento
Não lembro de nada
mas na manhã
em que saí do útero
devo ter chorado
de desespero
Eu ainda não sabia flutuar
fora daquele universo
Eu ainda não tinha
lábios
que imaginassem seios
Então
eu era só incompreensão
de mim
e de como seria terrível
viver
neste outro lugar
que nos leva
a lugar nenhum

(agosto, 2011)

16/08/11

O FRIO

Agora mesmo ela disse que me odeia
Sinto tanto
mas o momento
é para desamarrar o tempo
preso ao meu pulso
buscar uma coberta
na montanha de lixo
um resto de comida
Querida
ódio nada tem a ver com amor
assim como os dias
nada têm a ver
com a areia da ampulheta
Ontem foi a noite mais longa
do ano
encontrei o Gaspar
chutando
bolas de luz imaginárias
que ele diz
que se desprendem
das lâmpadas dos postes
Ele tinha uma garrafa
quase cheia
Os cantos todos estavam encharcados
não tínhamos onde sentar
demos uma volta na praça
o povo todo cambaleando
olhava pro chão
à procura de sobras

(agosto, 2011)

14/08/11


Gilbert Garcin
A PAZ

as melhores pessoas do mundo
estão perdidas
eu gostaria de dizer
que elas não têm para onde ir
mas é mentira
pensei até em convidá-las
para virem aqui
mas eu não tenho aqui
eu gostaria de chamar cada uma delas
pelo nome
dar um prato
um talher
meu coração
meus pés
mas é mentira que eu não tenho aqui
meu lugar é jerusalém
minha casa é a palestina
e as melhores pessoas do mundo
estão aqui

(agosto, 2011)

11/08/11

O CAOS

Amor sobre amor
empilhados
até atingirem
a moradia
dos meus pais
Amor sobre amor
soterrados
muito abaixo
dos ossos
dos meus avós
Pele sobre pele
ao tempo
agarradas
Todas as miradas
se espalham
Todos os narcisos
olham para o céu
Céu sobre céu
e a terra
treme
arqueia
e geme
Homem contra homem
E as crianças
rastejam
sob o sorriso do sol

(agosto, 2011)

10/08/11


Garry Winogrand
O SILÊNCIO

Estou bem distante da piedade
Sou miserável
e dissoluto
Não julgo meus acertos
mas meus crimes
são tão evidentes
que nem é necessário contá-los
Certa vez
estive próximo
muito próximo
de um templo reluzente
agora ele está envolvido por heras
e sombra
Já não soluço
não me arrependo
Estou nos braços da justiça
Sou velho
como ela sempre foi
A balança pende
Fecho meus olhos
A espada desce


(agosto, 2011)

09/08/11

O VERBO

Ecos do paraíso:
uma bomba atômica armada
no coração
É difícil acreditar que Ele descansa
enquanto corremos
enquanto ela sequer diz adeus
enquanto todos buscam por compaixão
enquanto a voz da poesia ainda voa
enquanto eu ensaiava ao piano
tão pequeno que as pernas balançavam
sentado na banqueta
ou girava
zonzo sobre a relva
Eu queria a escada
a corda
qualquer coisa que me elevasse
Meus pés nunca suportaram o peso
do chão
Ecos da sua voz
mãe de deus
você estava em tudo
o encanto era o nosso lugar de repouso
Subimos a montanha
encontramos água
multiplicamos o pão
e enquanto eu erguia nossa casa
você acendia o fogo
ali ao lado
Aquele foi nosso paraíso
Agora
meu amor
é tão frio
Estive bem perto de encontrar
a palavra exata
aquela que por certa
alcançaria seu centro

(agosto, 2011)

08/08/11


Gilbert Garcin
O INFINITO

os assassinatos
um após o outro
começaram numa madrugada de janeiro
eles me alcançaram definitivamente
ontem à tarde
durante uma leitura
estava tão concentrado
as janelas fechadas
o ar pesado feito guilhotina
e uma premonição
golpeando
é sempre bom repetir
que as janelas fechadas
tinham feições de fantasmas
os velhos fantasmas de sempre
os juízes
os velhos juízes de sempre
vociferando na tribuna
um deles disfarçado de mulher
mas seu timbre desmentia a própria condição
de mulher
ouço vozes
como já disse outras vezes
pouco distintas
é verdade
se bem que não alcanço a verdade
desde aquela madrugada de janeiro
foi quando os assassinatos
começaram
um após o outro
viajaram muito
os crimes as vítimas os criminosos
e as palavras
os juízes os fantasmas
e as sentenças
viajaram muito
até que me alcançaram
aqui

(agosto, 2011)

07/08/11

A ÁGUA

nunca compreendi o deserto
a multidão de olhos vagando pelo deserto
como fiz centenas de vezes
vaguei vaguei
eu fui um trem carregado de sinceridade
atravessando o Atacama
ou por aquele céu da Sibéria que me atingiu
certeiro
como um dardo
eu era o alvo
sempre fui o alvo
eu era tolo e fútil
tolo e fútil
não tinha como mudar
minha maneira de amar
não tinha como mudar minha maneira de andar
não tinha nada
nunca terei nada
além das lembranças
isso também é algo que já perdi
continuo vagando
como o éter
este é meu deserto
e minha fortuna
ela está aqui
uma lágrima

(agosto, 2011)

03/08/11


Gilbert Garcin
O AR

Levei a mão à cabeça
O inferno acima
arremessava me arremessava
Lembrei que eu e o fogo e o ego
lutamos
por longas eras
Eu só trazia meus dedos
não mais que cinco dedos
enroscados
ao trapézio
Pensei novamente na queda
no paraíso em vida
nos palhaços
no purgatório
nas cambalhotas
no céu
na legião de mulheres abandonadas
e numa cabeleira sintética
vermelha
no centro do picadeiro
na bailarina e sua sombrinha
no cavalinho de pau
da infância
no tigre
e no leão desdentados
sonhando em suas gaiolas
num elefante em chamas
que banhava a si mesmo
Mãe de misericórdia
tudo crescia à minha volta
pedi por mais tempo
não de vida
nem de sorte
pedi por mais tempo
em suspensão
por mais um milhão de suspiros
um instante antes
de tocar a terra
(agosto, 2011)
O FOGO

Depois caminhei pelo lugar
que num outro tempo
foram as docas
Um mundo abandonado
como um cão
Nem um navio fantasma
balançava
O solo manchado de flutuação
uma cor aqui
uma outra mais distante
Eu caminhava
com as mãos para trás
entrelaçadas
sonhando
como nuvens espessas
sonham
com o frio
e com a neve
E uma dor muito grande
apareceu
como um animal marinho aparece
grande e feroz
após vencer o horizonte

(agosto, 2011)

02/08/11


Gilbert Garcin

A TERRA

Tudo já foi visto
Não espere mais do que duas ou três palmeiras
dançando como ancas
voando
presas na areia
bem perto do mar
Quase nunca ouvi vento assim
se bem que houve uma única vez
eu estava neste lugar
e vi um círculo se fechando
era o círculo da amizade
e dentro dele
o absoluto prazer que a amizade traz
Parecia que toda a ordem constituída
estava revirada
eu tinha a sua mão
não
não era sua mão de menina
era seu coração
era a sua boca
a sua boca
me sugava
o planeta ardia
e tudo estava tão revirado
quanto o seu corpo
e você buscava o mesmo prazer que eu buscava
e o meu pulso era o seu
Lembra que desejamos a inquietude
tanto quanto o conforto
e também
aquela experiência que queríamos e queríamos e queríamos
e sequer compreendíamos por quê
Estou lembrando da vida na Terra
como ela foi
e de uma noite na praia
e da fogueira no centro de tudo
e dos seres que se encontram
e se separam
sem despedida
Estou falando do trabalho humano
e da exasperação
e da devastação
De qualquer modo
eu gostaria que sempre lembrássemos
do prazer que encontramos
numa noite numa madrugada
Tenho quase certeza que foi assim
deve ter sido pela causa
de apreciar coisas como essas
que no sétimo dia
ele descansou


(agosto, 2011)

27/07/11

O PARAÍSO

a você que me pergunta
o sabor de tudo
digo que perdi
o que chamaram de língua
a você
pequena
a outra
e a uma outra
aquela que ainda chamo de inteira
que no minuto certo
me perguntou
onde estou?
mesmo sabendo que não havia resposta
a você
a vocês todas
eu confesso
consegui encontrar
o lugar

(julho, 2011)

22/07/11


Costa Dvorezki

O CÉU

ainda não descobri qual é a herança
um redemoinho me trouxe até aqui
este é o portal
foi o que você escreveu
numa carta
certa vez
e também que daqui para frente
levamos
somente
o que somos
de verdade
nada de corpo
nada de misericórdia
nada de ensinamentos
um molho de chaves bastaria
e algum lugar
uma casa quem sabe
e uma porta
que pudesse ser aberta
por uma lembrança
uma lembrança
bastaria
aquela onde sou nada
e somos tudo
e seria impossível recordar
das lutas
dos seres picados
por baionetas
das palavras vermelhas
deitadas no campo de batalha
antes de vir
eu perseguia um desejo
nele estavam contidas todas as carícias
que lhe devo
aquela no centro da sua alma
aquela outra
massageando seus pés
depois da viagem
sem a velha preocupação
com o tempo

(julho, 2011)

18/07/11

O PURGATÓRIO

quando você está numa sala
desconhecida
as paredes pintadas de branco
a vida está lá
invisível
eu posso até duvidar
você pode também duvidar
mas ela está lá
há tantas coisas invisíveis
em que acreditamos
e estamos dentro delas
incorporados
vestidos
permanentemente protegidos
e indefesos
olho através de você
sua fé
sua falta de fé
sua coragem
seus desejos são invísiveis
e o frio
e a sede
e os seus mortos
tão vivos
também estão lá
como
quando lhe falta o ar
dentro de um sonho
possivelmente
numa sala desconhecida
as paredes pintadas de branco
as roupas de cama
brancas
essa cor que sempre muda
pela manhã
ou no decorrer do dia
e lá pelo meio da tarde você desperta
olha para a vida ao seu redor
é tudo tão simples
e aterrador
e ela continua invisível
mesmo imóvel
você está cada vez mais perto
eu sinto
esse seu silêncio

(julho, 2011)

13/07/11


Costa Dvorezki
O INFERNO

Cristovão está no Céu
– todos devem saber
que uma afirmação como esta
é muito arriscada
só que nada mais me importa
nenhuma afirmação
nenhum desmentido
só sei que a filha de Cristovão
desapareceu outra vez
não voltou para casa desde um certo sábado
eu estou a dizer
que essa mulher não me assombra tanto quanto antes
nem a sua dupla vida
nem a visão de si mesma
afastando-se dentro de um onibus
numa praça qualquer de Cracóvia
por isso penso
em Cristovão morando no Céu
e penso
em seu Decálogo
em seu Purgatório na terra
sei que nada será o mesmo
nem a cor vermelha
nem a cor azul
nem a cor branca
serão as mesmas
sei que mais uma vez
ela me abandonou
e outra vez ainda
ela voltará
eu desconfio até de quem sou
eu que desconfio até de seu nome
certa vez ela se chamou Veronica
outro dia mesmo era Julia
e depois Domenica
e repentinamente Valentina
já não compreendo mais os dias
já não consigo dormir
desde uma certa noite de março de 1996

eu permaneço na vigília
descanse em paz, Cristovão

(julho, 2011)

11/07/11

TEMPO ESGOTADO

novamente o frio
nas faces
não faço ideia das horas
entretando a procuro pelo mundo
ela aparece e desaparece
minha vida tem sido assim
visões
delírios
depois tudo se apaga
é o encanto
em seguida surgem as palavras
dóceis mas incompreensíveis
há belas palavras
o nome dela
é uma bela palavra
eu a sigo pelas ruas
ela está em todas as cidades
eu estou em todas as cidades
ah! sim
voltemos um instante
às palavras
navegação
armadura
amor
desejo
desapego
coragem
luz
ontem
lembrei outra vez do modo como ela sorri
aquilo sim é a luz
conformismo
revolta
desilusão
tez
cheiro
agora atravesso a soleira de uma casa desconhecida
estou a três passos
da mesa da cozinha
o aparelho de porcelana
o chá
o vapor
o arrepio
o frio
a pele
o incêndio
não

ninguém
aqui
devo estar em outro lugar
numa nova cidade
numa outra cidade
não tenho mais palavras

(julho, 2011)

06/07/11


Edgar Mendoza Mancillas

SONO PROFUNDO

no fim
estávamos todos cercados
orei pela sua volta
chorei por ela
estávamos outra vez cercados
é importante repetir
e não havia bálsamo que nos desse o alívio
a dor se alastrava
como um incêndio
procurávamos as crianças que se perderam dos pais
elas nunca mais foram achadas
nos parques bosques florestas
só chamas
onde fôssemos não as encontrávamos
estávamos também perdidos
a insônia nos desmontava
corríamos dela como cavalos em pânico
mas ela insistia
se lembro bem
a insônia voltava a montar com toda a sua força sobre nós
era um tempo sem música
sem música
nunca é demais repetir
pela manhã eu pastoreava
um poeta me seguia
era ele o velho cego?
já não lembro, de pouca coisa lembro
então eu pastoreava
era um vale pedregoso
em algum lugar além das ilhas
eu sentia o cheiro do leite e do queijo
quando voltava para casa
lá pela hora do almoço
aquilo também me perseguia
o cheiro
era sempre o mesmo
eu me sentia um animal igual a elas
as cabras
não havia banho que me salvasse
não preciso dizer da eterna sede que me seguia
e depois
vinham as tardes
onde eu me debruçava
sobre a face da fome a face do fogo a face da morte
eu não desistia
não havia como desistir
e me debruçava sobre a pior de todas
a face da traição
ela estava grudada em meu olhar
como uma praga
inscrita em páginas e mais páginas
esqueça a revanche
eu disse a mim mesmo
a traição terá sua própria sina
irmão ou irmã
é sempre bom repetir
somos apenas um
seu erro será também o meu erro
sua prece será a minha
seu destino, o nosso
e eu pedia a sua volta
durante as tardes
depois as chuvas vieram num carrossel
as chuvas eram como chicotes
eu queria voltar à infância
eu implorava
assim eram as tardes
cheias de fúria
tardes inteiras sem um sonido sequer
é sempre bom lembrar
que a memória se esvaia sem piedade
certa tarde pensei
faz hoje exatos seis meses
que enterrei o corpo de minha mãe
- o que mais se pode dizer sobre a ausência?
ficamos fadados a perseguir a nós mesmos
ao que resta
de lembrança
em nós mesmos
e ela vai morrendo
e renascendo
tarde a tarde
dentro de nós
então vinham as noites
e junto com elas
suas cartas
meu amor
e você falava da pureza
onde está ela?
você me perguntava
não a encontro mais dentro dos homens
a ternura
a delicadeza do amor
entre uma mulher e um homem
haverá tempo ainda?
sempre há
disse-me o velho outro dia
ou terá sido numa noite dentro daqueles olhos de velho?
depois
mais dentro da noite ainda
encostava meu olhar ao céu
e estavam todos lá
os amigos
os tios
os avós
os bisavós
os velhos artistas
que ainda hoje
me ensinam
eu era um homem
repleto de mortos
de lembranças dos mortos da minha vida
noite
noite
e mais noite
depois
vinha a manhã
era ali que eu depositava todas as palavras
e foi assim que se deu
o começo

(julho, 2011)

26/06/11

UM BOM LUGAR

O velho urso
alcança novamente o topo da montanha
depois de escapar da jaula
O guaxinim convive com os gatos
na palha do celeiro
O leite está quente
O café está pronto
A montanha sussurra
com o vento
que corta as árvores
Meu avô
e seu velho companheiro
de pradaria
com as costas dilaceradas
num ataque do urso
estão sentados na varanda
O corpo de meu pai está enterrado
na encosta da colina
Minha mãe sorri
através da janela da cozinha
A luz do sol invade a manhã
Sou uma menina de sorte
tenho onze anos de idade
e este é um bom lugar
pra continuar a viver
(junho, 2011)

20/06/11


Edgar Mendoza Mancillas

INSTRUÇÃO PARA CEGOS

Então ele diz
que só há tempo para a candura
esteja eu aonde estiver
Ele me conta do avião monomotor
sobrevoando o Alaska
Ele me conta do avião partido pelo vento
ao sobrevoar o Alaska
a carga perdida de mantimentos
e sua caminhada solitária
por três dias e duas noites
de volta à aldeia esquimó
Então ele diz
que jamais estaremos sozinhos
que somos todos
todos
somos todos
Ele percebe minhas lágrimas
velho amigo
querido poeta
você que perdeu os olhos
pra poder enxergar
Ah que tarde dourada
há o azul por todos os cantos
Ele diz que há tempo ainda
que sempre haverá
Então eu me despeço
de seus pássaros
e volto a caminhar

(junho, 2011)

17/06/11

TELEFONE OCUPADO

Estou fora do ar
isto é
quando o ar existe
Sei que não penso
através das palavras
é uma outra algazarra
são como canções
internas
tão internas
outras vezes são como marteladas
só minhas
no centro
entre os ouvidos
Finalmente sigo em direção ao velho
sentado no parque
Tento outra vez
e mais uma vez ainda:
telefone ocupado
Sento ao seu lado
velho amigo
querido poeta
ele traz mínimos pássaros presos
com alfinetes
à fita do chapéu
Esta é uma tarde dourada
outra vez
e há o azul em todos os cantos
Penso
entre marteladas
numa viagem
até o arquipélago das Aleutas
Fito seus olhos
cegos
finalmente pergunto:
haverá tempo ainda?

(junho, 2011)

16/06/11


Edgar Mendoza Mancillas

TRISTESSA

Ainda não sei o que dizer
só faço ler e reler Kerouac
espichado
no sofá do escritório
numa tarde ardente
apesar do frio
nos pulmões:
Tristessa com o rosto em farrapos:
Esperanza com o coração em frangalhos
vagando pela cidade do México
vendendo o corpo
por um grão de morfina
E você, meu amor
já escolheu onde morar?
Poderia ser aqui dentro
isto aqueceria esse ar rarefeito
Eu lavaria a Terra toda com seus olhos
aliás
que cor era aquela
quando você me olhou pela primeira vez?
E no entanto
mesmo com toda essa sua cor no olhar
penso muito num desastre
num acontecimento sem precedentes
um cataclismo no coração
em pessoas que aparecem e desaparecem
em coisas que se dividem
eternamente
Ainda não sei o que dizer:
assim somos
uns animais extintos:
almas penadas persistindo
num vagar de nuvens
Até parece que viver
nesta tarde
é uma missão para os loucos
Sinto que estou indo
levantando
levitando
o sanatório fica logo ali
dobrando a esquina
Eu viro a página
ainda não sei o que dizer
meu amor
parece até
que o fim do mundo
fica logo aqui
(junho, 2011)

13/06/11

PELO MENOS 30 ANOS MAIS JOVEM

(Mariana Gikas, este poema é pra você)
você escapa pelo mundo
do mesmo modo como fiz
quando tinha a sua idade
atravessando a cordilheira
procurando a palavra exata
dormindo nas estações
o trem subindo subindo
eu corria pelo país
depois o atlântico
sempre na mira
aquela muralha de vida
eu era assim
idêntico a você
sem contar a cor dos olhos
idêntico a você
sem contar o seu jeito de menina
você anda pelas ruas
do mesmo modo que eu
houve um momento na tarde de sábado
que eu tive a certeza de que já fomos um
o amor deve ter me dividido
há alguns anos atrás
você sabe
só você mesmo pra compreender
que a gente se divide
em coisas simples mas eternas
céu e terra
água e fogo
medo e coragem
ar e falta de ar

foi naquela hora
tudo se separou
e você nasceu

(junho, 2011)

04/06/11

MAIO, 2011

dizem
que a dor também embebeda
maio então foi o mês
da embriaguez
choveu em muitos lugares
vi um deserto alagado
chorei tanto
que me dividi em vários mares
sei que houve um encantamento
mas ele vinha disfarçado
e voava
todo encantamento voa
ao nosso redor
disfarçado de ar e de falta de ar
disfarçado
sem nome sem rosto sem corpo
e a dor
sim
a dor
vinha inteira
de todos os lados
uma parte de mim sonhava
dormia
acordava
voltava a sonhar
acordada
parte de mim
penava
outra resistia
foi assim
numa certa manhã desisti
então orei
uma prece tão antiga quanto a própria dor

(junho, 2011)

30/05/11


Edgar Mendoza Mancillas
OBRAS COMPLETAS

Tomo como medida
a noite de sábado
ou o princípio de tudo
que de fato se deu
na tarde de sábado:
tratei de escancarar
o guarda-roupas
e olhar peça por peça
O frio finalmente chegara
Recordei assim
o que se passou nos últimos 40 anos
Aos meus olhos
vieram todos os invernos de uma vida
E o tempo parado em meu quarto
como um cabide vazio
Pois então
colhi um velho casaco
bem pesado
próprio para os dias
próprio para as noites
dos trópicos
quando o frio se aproxima
com triste violência
Devo admitir
que estive aquecido
completamente aquecido
apesar da condição
de sobrevivente
único
das ruas

Naquelas circunstâncias
trancar a porta da casa
e abandonar-me pela cidade
foi como fechar um livro
com minhas obras completas

(maio, 2011)
GÊMEOS

penso em dois mundos distintos,
penso tanto que dói.
uma paisagem, a arte, crianças, o afeto
não me distraem, portanto
nada me distrai

penso em mim como dois seres:
o que aborta e o que cultiva,
o que cria e o que arruína,
vocês sabem: aquele que adora
e o outro,
o que não vê, não promete, não entende,
não entende principalmente a noite
o dia, os dias, a calma deles, a inquietude dela,
o silêncio, a ruptura e a absolvição

(maio, 1998)

20/05/11

ESTA SIM É A ARTE VERDADEIRA:

rolando sob as pálpebras
ainda as imagens de Asia Argento
uma atriz só lábios
e olhos
bem abertos
e também há as serpentes
entre os lençóis
e sob o travesseiro
é como um encantamento
a arte de seduzir serpentes
mas
não me perguntem nada
sei que minha doce mãe continua
viva
dentro do sonho
na gélida noite
ela está lá
e lá permanecerá seu mais puro sorriso
sei que é dia
apesar de não ouví-lo
não há latidos
apesar de ouví-los
ao final
tudo se resume na árdua tentativa
de seguir vivendo:
nós
os homens ocos
que sempre despertamos
para o irremediável
dia

(maio, 2011)

11/05/11

LETTERA 22 (quatro)

eu ficava só olhando pra trás
o povo todo na frente
feito fila indiana
o Marinho tinha desaparecido
aí eu voltei
ele tava caído no meio do mato
com o vidrinho de lança-perfume
do lado
eu falei levanta, meu
a gente vai se perder
ele falou muito devagar
tô olhando pro céu
eu falei
não tem céu nenhum
tamo no meio da mata fechada
ele disse
o céu tá dentro da minha cabeça
ele ficou de pé e seguimos
só o velho Baeder mesmo
pra juntar toda a molecada
e trazer pro rancho
no meio do vale da Ribeira
na beirinha do rio Assungui
viemos em três carros
o jipe da Lucy
o fusca do Hiro
a perua do velho Baeder
que ficaram no meio do barro
encostados do lado da estrada
acho que éramos uns treze
ou quatorze
quando chegamos
o Marinho foi desmaiar na rede
todo mundo pelado tomando banho de rio
menos eu e o velho Baeder
descascando alho cebola batata cenoura
acendendo o fogão
lenha não faltava
eu sempre dividido
não sabia se ia ou voltava
como na trilha
não sabia se me jogava no rio
junto do povo todo
ou se ouvia as estórias do velho
cada coisa que ele dizia
do mundo
puxa vida
eu nunca vou conseguir
esquecer daquele homem

(maio, 2011)

09/05/11

FALTA DE AR

Em parte
está tudo bem
mesmo
depois
do telefonema
Em parte
alguma coisa mudou
A notícia veio do médico
ele mandou informar
que exames periódicos
são necessários
a todos nós
os filhos
justamente
naquela parte do corpo
onde podem nascer
pequenas auréolas
de câncer
elas ficam lá
descansando por décadas
nada dói
apesar da alma
nada avisa
que uma bomba devastadora
está sendo armada
Falei à minha irmã
que não tomaria
providência alguma
Desliguei o telefone
e continuei a escrever
na vidraça
com meu dedo indicador
pequenos poemas pra você,
meu amor
Em parte
tudo está bem
mas só consigo
ler o que escrevo
quando sopro
sobre o vidro
deste jeito
quase sem fôlego
(maio, 2011)

04/05/11

ABADDÓN

infinitamente mucho pero infinitamente poco
escreveu
Sábato
em algum momento
de sua vida
deve ter sido
na Buenos Aires
do início dos anos 70
do último século
Marcelo foi morto
sob tortura
sem abrir a boca
Nacho vigiava
sua irmã
por toda a cidade
sabia com quem ela andava
e voltava pra casa
vazio
com as mãos enfiadas nos bolsos
El loco
viu o dragão de sete cabeças
soltando fogo
pelas ventas
só ele viu
Confesso
que
não entendi bem
voltei a ler
a mesma passagem
era uma verdade
literal
inscrita
logo nas primeiras páginas
do livro
Pensei em deus pela primeira vez
depois de anos
foi então
que meu sofrimento
começou

(abril, 2011)

02/05/11

SENHORAS E SENHORES

havia uma certa claridade
em algum lugar
eram as crianças que ainda saltavam
mas sequer percebíamos
a brincadeira
a leveza
havia uma canção
em algum lugar
não
não era uma canção
ainda
era alguém que tentava cantar
mas a voz
não saía
então
caíamos
como pétalas
como folhas
como bombas
como a própria música
caía
nada nos sustentava
nem os anjos
nos sustentavam
eles eram tão frágeis
debatiam-se
tentavam voltar
a voar
e não conseguiam
senhoras e senhores
estamos
longe
muito longe
de levitar
custa-me dizer
que estamos caindo
que não há paz
que não haverá paz
e que
nada nos sustentará
(maio, 2011)

28/04/11

LETTERA 22 (três)

o fumo
do meu pai
só tem na tabacaria
do largo dos Pinheiros
ele passa em frente
e não para
ele chega em casa
e não pede
ele manda
pega a bicicleta
traz dois maços
douradinho extra
é o nome da coisa
que fede
eu quase me mordo
são dez quarteirões até lá
ligeiro ligeiro
largo minha fantasia
no mezzanino da garagem
onde eu sou zorro
no cavalo de pau
onde eu sou el cid
cavalgando morto
na frente da cavalaria
minha batalha é essa
de onde saio
todas as tardes
com a certeza
que sou o único
que sobreviveu

(abril, 2011)

23/04/11

LETTERA 22 (dois)

Eu sempre confundo essa coisa
de outono inverno
de primavera verão
nunca sei quando é uma estação
quando é outra.
Ontem de noite
por exemplo
tava muito frio
em pleno abril.
Fomos lá pro fundo da casa do Chicão
no meio do barranco.
Aquilo tudo de sempre
fogueira
vinho vagabundo
e os cigarros.
O Chicão no violão e na voz.
Meu Deus
aquilo era o céu.
Aí eu te pergunto:
quem chega?
O Hiro, a Taekinho, a Mirna
a Lucy e a Gê.
Meu Deus
aquilo era o céu
com frio e tudo.
Então a Lucy tocou e cantou uma música
do Georges Moustaki.
Só não chorei porque as meninas
iam rir de mim, eu acho.
Depois
bem mais tarde
eu não conseguia distinguir o que era estrela
e o que era fagulha fugindo
da fogueira.
O Hiro me disse
vem
cara
que eu te levo pra casa.
(abril, 2011)

22/04/11

LETTERA 22

Berenice passou por aqui
levou o livro do Machado
disse que é só um empréstimo.
Ela sempre me trata meio aos trancos
isso é bem estranho
deve ser um incômodo
uma desarrumação interior
alguma coisa assim
bem dela.
Amanhã faço 16 anos
meus pais não se falam
faz 10
e eu aqui
feito besta
espantando a fumaça
pelo vão da janela
olhando o cachorro sentado no quintal
e o gato dormindo.
Berenice disse que eu devia lavar os cabelos
e que eles estão horríveis
ela sempre diz coisas assim
parece que ela me ama
e me odeia
ela mal fez 14
é uma peste
sonha com um país só de índios
gente pescando no rio
na base do arco e flecha
não sei fazer isso
eu disse
então
ela me chamou de idiota
virou as costas e sumiu.
Silvia
já é bem diferente
ela faz ballet
e tem uma voz
meio rouca
que arrepia minha nuca
quando conversamos
jogados na escada
na entrada da casa dela
as coisas são desse jeito entre nós
um pouco largadas
ela ri muito das besteiras que eu falo
e eu fico bem quieto
quando ela fala.
Ela namora um cara que mora no Rio
eu namoro
uma outra menina que namora um outro cara
que também mora no Rio.
A gente se ama
muito
a Silvia e eu.
Têm coisas na vida
que eu nunquinha
vou ser capaz
de entender

(abril, 2011)

14/04/11

OUÇO VOZES

o que tenho dito
deve ser numa voz muito
muito baixa
coisa
que
quase não ouço
eu digo:
vida,
cadê minha recompensa?
odeio sentir que estou sendo sacudido
ou
imobilizado
pela autopiedade
ouço vozes
incessantemente
vozes insensatas
vozes verdadeiras
as verdadeiras
a maioria delas
são as dos amigos
aqueles que me colocam à frente
das próprias vidas
as insensatas
as vozes insensatas
essas rondam
perseguem-me
exatamente no momento do descanso
quer dizer
não descanso
ouço vozes
um amigo me disse
outra noite
feche os olhos
ouça a música
está tudo bem

(abril, 2011)