18/11/11

SELVAGEM

Comecei a morrer
pela primeira vez
numa manhã de maio
do ano de 1953.
As irmãs eram tão pequenas
quanto eu
apesar de terem vindo antes.
Bem antes
eu vira a expansão
– ou era aquilo o vagido? –
do universo
e compreender isto
seria uma outra história,
um novo nascimento.
Compreender
que quanto mais vivo estava,
quanto mais minhas pernas cresciam,
mais eu me distanciava
de mim.
A segunda vez,
ou seja,
o começo da segunda vez,
não importa:
títeres já habitavam minhas pálpebras.
As luzes da rua tremiam.
Eu sonhava sombras no berço
e os móbiles
tão antiquados
quanto é possível imaginar,
os móbiles voejavam
e suspiravam mais e mais sombras.
Era este meu canto de ninar:
paredes cobertas de notas musicais.

Seria um bom lugar aquele
se eu pudesse distinguir
o que era afeto e o que era terror.

(novembro, 2011)

2 comentários:

  1. Deixou-me suspensa,em suspense...
    Seria um bom lugar aquele
    se eu pudesse distinguir
    o que era afeto e o que era terror.

    Graça

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  2. Graça, a infância só termina quando deixamos de sonhar. Depois vem a triste missão humana de distinguir o afeto do terror.

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